quinta-feira, 18 de março de 2010

Capítulo 3

Santa Casa de Misericórida














Assim como Jesus, que ressuscitou e ascendeu aos céus no terceiro dia, a Thata finalmente saiu do hospital. Voltou para casa escoltada por mim, pelo Cesar e pelo seu tio/padrinho Ricardo. Amigo há muitos anos nessa vida e provavelmente há muitos séculos em uma visão mais ampla. O Rick, como o chamamos, sempre esteve junto nas horas boas e más. Nossos filhos sempre o chamaram de tio, e as pessoas inevitavelmente pensavam que os dois, César e Ricardo, são irmãos. Apesar de fisicamente não haver nenhuma semelhança, espiritualmente a afinidade é evidente. Sempre foi um grande apoio emocional e nessa hora não foi diferente. No caminho fomos conversando sobre tudo que estava acontecendo, tentando mostrar para a Thata que havia opções, tanto no sentido do diagnóstico, quanto da cura. A escolha estava nas mãos dela. Afinal, ainda havia a possibilidade de não ser exatamente um tumor. Exames seriam feitos e dúvidas seriam esclarecidas.



Na hora de dar a alta o Dr. Getúlio nos instruiu sobre todos os cuidados, além de uma carta de encaminhamento para a Santa Casa, diretamente para um médico que passaria a dirigir o tratamento dali em diante. Ela seria atendida pela equipe especializada em cirurgia torácica, referenciada como a melhor do Brasil. Era o começo do fim de semana e na próxima terça-feira o Dr. Gibran estaria nos aguardando. Pediram urgência e ela seria atendida rapidamente. Apeguei-me a expectativa de um diagnóstico diferente, a possibilidade de um erro. Apesar do meu coração dizer que “algo” já estava sendo traçado em outro plano.



*Diz Elias, o profeta:

Existem momentos em que o infortúnio

irrompe na nossa vida e não o podemos evitar.

Mas ele existe por alguma razão.
O Ian estava em casa, ansioso para ver a irmã. Como ele tem pavor de hospital, não a via desde o dia da queda. Quando chegamos, fui percebendo a emoção da Thata de estar, finalmente, em casa. O Cesar abriu a porta enquanto eu a apoiava para que ela entrasse. Nesse momento, o Ian veio ao nosso encontro, feliz por vê-la em casa. Ela estremeceu.... A visão do irmão despertou a sua memória de tudo que talvez teria que abandonar – os sonhos que deixou caídos embaixo do trapézio. Ela abraçou o irmão e chorou desesperadamente! Eu sabia o que passava pela sua cabeça, tinha medo de não voltar a vê-lo, de que aquela cena não acontecesse. Choro. Lamento. Medo. Dor. Mudanças... muitas mudanças!







Os próximos dias se tornaram um misto de felicidade e medo. Felicidade por ela estar em casa, colorindo novamente a vida de todos. Medo pela expectativa de não saber o futuro dali em diante.



Era bom vê-la brincando com os passarinhos, Gandhi e Ashtar, nossas duas calopsitas. Pássaros são conhecidos como mensageiros dos deuses, e esses são realmente especiais. Gandhi é o retrato do indiano do qual adotou o nome, calmo, tranqüilo, às vezes até medita. Já o Ashtar é o próprio comandante. Agitado, inquieto, se acha o dono do pedaço.



Por incrível que parece eles conseguem se entender. De manhã é sempre muito bom vê-los na janela, olhando a paisagem e, na nossa fantasia, guardando a casa.



Durante esse período, ela recebeu todos os tipos de visitas, dos amigos, da família, dos seus anjos e dos seus demônios. Era a sensação de estar no limbo, onde nenhuma decisão pode ser tomada e nenhum caminho definido.



A vida a fez parar. Nossa cultura valoriza o mundo externo, as aparências, e faz com que isso seja definido como realidade absoluta. A consciência não deixa essa atitude passar impunemente, e o preço pode ser alto. “Onde não há visão as pessoas se perdem”, mas para se ter a visão é preciso sabedoria, além da disposição de olhar para dentro.



Fugir de nossos anjos, demônios, deuses e deusas interiores pode desencadear crises pessoais, ou de um modo mais violento, uma parada involuntária. Era assim que eu enxergava a situação da Thata. Um anjo abraçando sua alma com suas asas e dizendo:



- Deixe a luz do seu coração se expandir! Você tem compromissos assumidos em outros tempos para cumprir.



Parece muito místico ou fantasioso, mas para mim sempre foi muito claro. Essa passagem me lembra de uma época em que eu morava no Mato Grosso do Sul, durante meu primeiro casamento com o pai da minha filha mais velha, a Day. Costumava ficar sozinha durante todo o dia. Uma moça me auxiliava no trabalho com a casa e, quando eu precisava, ela ficava com a Dayanne, que, na época, tinha 10 a 11 meses. Em dias claros, logo no começo da tarde, gostava de ir a um ribeirão que ficava a uns 10 minutos de caminhada. Era uma descida íngreme, mas aquele lugar era de uma paz sem igual. Uma energia que invadia minha alma. Sentia a natureza! Podia ouvi-la e compreendê-la. Sempre que me lembro desse lugar e das experiências que tive, sinto uma a força de uma presença que ainda me acompanha.



Em um determinado dia a experiência foi marcante. Sei que estive no local e falei com alguém, seres que não pertencem a esse mundo. A mensagem veio como um bloco. Sentia a brisa tomar conta de mim. Um perfume doce, paz, e um sentimento profundo de que havia recebido um chamado. Uma lembrança antiga havia sido despertada. Mudanças precisavam ser feitas. Por algum motivo saí correndo de lá, estava acostumada a subir o morro a pé, mas naquele dia, logo que saí da mata encontrei um lindo cavalo, todo branco, pastando livre. Parece loucura, mas senti que ele estava me esperando. Tanto que, quando me aproximei, ele nem resistiu. Estava sem sela, mas isso não me impediu de montá-lo. Ele subiu o morro e seguiu pela rua até me deixar em frente de casa. Depois desse dia nunca mais voltei no ribeirão. Até hoje não sei explicar como fiz aquilo. Adoro cavalos, mas não tenho esse domínio com eles. Tenho 1,63m de altura e o cavalo estava se sela!?!?!?! Lembro-me de não ter dúvidas...olhar para o cavalo, montar e chegar em casa. Tenho certeza de que não foi uma fantasia, até por que teve o lado desagradável da história, como por exemplo, o suor do cavalo nas minhas pernas. Estava sol e eu vestia uma bermuda curta. Minha pele estava em contato direto com o pelo do cavalo, o meu suor misturado com o dele resultou em uma espuma branca que me fez correr para o banho e ficar alguns minutos seguidos tirando “aquilo”.



Por algum motivo aquele episódio me fez tomar a decisão de me separar do meu primeiro marido e voltar para São Paulo. Não seria fácil, eu tinha 17 anos, uma filha e um marido que não queria a separação. Além disso, morava a três dias de viagem de ônibus de São Paulo.



Estava determinada, e o que eu sentia era mais forte, e em meio a brigas e discussões vim em busca do meu destino. É um caminho que todos têm que enfrentar em algum momento da vida. Faça o caminho de bom grado ou a vida vai obrigá-lo. Não espere por isso, pode ser dolorido.



- Olhe para si mesma. Esse é o seu compromisso. – Conselho do anjo. Desafio dos demônios.



A Thata havia sido parada pela vida. Estava indo de encontro a seu destino. Hora de enfrentar e crescer. Parar para olhar para dentro de si mesma e redescobrir seu caminho real. Quando o corpo pára, a mente entre em colapso. Fica buscando artifícios para distrair a consciência e não permitir que olhe para si mesma. Descobrir a verdade pode ser perigoso para a mente, por que ela vai perder o posto de comando. Então, ela te distrai. Faz você olhar para fora, para longe, quanto mais, melhor. Faz truques de ilusionismo que chamam a atenção de maneiras bem convincentes. A sua fuga de si mesma, estava com os dias contados. Era chegado o momento do seu reencontro. Rever. Retomar. Resolver. Encarar. Resolver. Resolver. Escolher.



A terça-feira chegou e fomos ao ambulatório da Santa Casa. Mediante apresentação da carta fomos atendidos prontamente.



- Yabata? Eu detesto errar nomes! Falei certo? – falou brincando o simpático médico dirigindo-se a Thata.



- É Thabata! – ela respondeu rindo.



- Há! Esse pessoal parece que não sabe escrever!!! – Entrem para podermos conversar!



Ele nos deixou bem a vontade desde o início. Era um médico jovem, mas tinha muita experiência. Olhou os raios-x, as tomografias e fez várias perguntas. Contamos em detalhes tudo que ocorreu. O trapézio, o tombo, o provável tumor...



- Realmente, tem uma massa no mediastino. Vamos precisar de mais exames. Pelos que trouxeram não tem como saber detalhes importantes. Pela aparência, parece ser um tumor. Mas, também pode ser que a queda tenha provocado uma micro fissura em uma artéria, e essa massa seja sangue coagulado. Também tem a possibilidade de ser um tumor e estar no pulmão – falou o médico, já num tom de preocupação.



Foi como receber um golpe de espada. Mesmo sabendo do provável diagnóstico, levei um segundo choque. O tumor poderia estar dentro do pulmão????



- E quais são esses exames? Quando podem ser feitos? – Perguntei.



- Bom, tem duas alternativas! Uma é solicitar os exames, pedir urgência e esperar vaga. Isso vai demorar até uns dois meses.



- E a segunda? - A Thata perguntou.



- A segunda é interná-la e fazer os exames em três a quatro dias!



- Não! Eu não quero ser internada de novo. Não! Mãe, por favor, não! – Respondeu a Thabata, já aos prantos.



- Calma, Thata! – Falou o Dr. Gibran – Ninguém vai internar você à força!



Os recentes três dias no hospital, 18hs na prancha, sem nenhum objeto pessoal e sem nada que pudesse ler, desenhar, etc... a deixaram com uma péssima impressão da palavra “internação”. Por isso, quando Dr. Gibran ofereceu essa opção, mesmo adiantando o processo, ela relutou bravamente.



- Thabata, tenho que ser claro com você. – Disse Dr. Gibran - Se essa massa for sangue, resultado de um rompimento arterial, o risco é grande. Você não pode fazer nenhum esforço físico durante esses dias. Caso contrário, a artéria pode romper novamente e causar uma hemorragia interna, e vai ser quase impossível te socorrer. Entendeu? Você tem que fazer repouso.



-Quer dizer que não posso voltar para as minha atividades normais? – Perguntou a Thata.



- Depende. Se você estiver falando dos treinos e do trapézio, não.- Disse Dr. Gibran.



- Thabata, é sério. Por um tempo, até termos os resultados dos exames e sabermos exatamente o que é isso e resolvermos o problema, você tem que fazer repouso. Não precisa ficar em casa deitada, mas também não pode sair por aí voando no trapézio. Entendeu?



Ela fez que sim e baixou os olhos, provavelmente pensando: - amanhã vou treinar!



Dr. Gibran fez então o pedido dos exames: aortografia e broncoscopia. O primeiro para investigar a possibilidade de um rompimento arterial e o segundo mostraria se havia comprometimento pulmonar.



Voltamos para casa pensando se a opção da internação não seria a mais acertada. Cortava o meu coração pensar em vê-la internada novamente, mas tudo seria resolvida mais rapidamente.



Naquela noite, ela conversou, através do MSN, com seu primeiro instrutor no KENJUTSU, o Nejem. Sempre teve grande admiração por ele, e sendo assim, sua opinião era muito importante. Tanto que ele a convenceu que a internação seria a melhor opção para resolver as coisas mais rapidamente.



No dia seguinte, pela manhã, eu e o Cesar, fomos até a Santa Casa para avisar o Dr. Gibran de que ela havia concordado com a internação. Já era tarde, a vaga estava ocupada.



O destino tem caminhos incompreensíveis
quando nosso foco está apenas no presente.



Foram dias difíceis. A Thabata tinha que fazer repouso, e não fazia. Tínhamos que brigar para que obedecesse. Fomos obrigados a conversar com amigos e professores do circo, para que não permitissem que ela treinasse enquanto o médico não liberasse.



******************



Às vezes ficava pensando se ainda estivéssemos trabalhando no restaurante. Fazia apenas 4 meses da desistência do projeto. Por um lado, foi triste e difícil desistir de tudo, ele era uma parte importante, tanto no aspecto financeiro quanto no profissional. Resultado do esforço de um ano negociando com a Federação Espírita do Estado de São Paulo. Eles estavam com toda estrutura reformada e procuravam alguém para ativar o seu funcionamento.



Procuramos um parceiro, e conseguimos colocar em prática. A maior dificuldade nossa foi assumir um restaurante onívoro. Para nós, vegetarianos há mais de 20 anos, era difícil trabalhar com carnes todos os dias. Quando começamos essa negociação partimos do princípio de que toda casa espírita Kardecista tem uma indicação para a diminuição do consumo de carne, no mínimo da vermelha. Não era o caso da Federação. Para a Presidente, na época, isso não fazia parte da filosofia. No contrato havia uma cláusula que nos obrigava a servir todos os tipos de carnes, todos os dias. E assim, um contrato de seis anos se desfez em um ano e meio. Já tínhamos algumas pendências financeiras para resolver, com o fechamento do restaurante elas cresceram....



Na ocasião já estava fazendo o programa na Rádio Mundial. Estava indo bem, audiência crescendo, os cursos sempre lotados. Podia fazer meus horários e o Cesar também. Nesse momento a situação era ideal para podermos dar mais atenção para a Thata.



**********************



Procurava estar mais em casa, conversar e saber como ela estava se sentindo em relação a tudo aquilo. Em uma dessas conversas ela me falou de um sonho que teve:



Ela estava em uma cama de hospital com muitas pessoas em sua volta. Sentia que “algo” estava errado. Em seguida, um médico com aparência de peruano pega seu braço e começa a apertar em vários pontos, como que procurando o melhor ponto para um injeção. Na outra mão ele tinha uma agulha, grande, em comprimento e diâmetro. Assustada, a Thata puxa o braço da mão dele. Uma enfermeira, que estava ao seu lado tenta acalmá-la:



- Fique tranqüila. Esse é o Dr. Touro Sentado.



Ela então, devolve o braço e ele faz vários furos com a agulha. Institivamente , ela tenta estagnar o sangramento com a mão.



- Não. Tire a mão. Deixa sangrar. É necessário.- Diz o Dr. Touro Sentado.



O sonho parece muito real, para ela naquele momento. Sem contar a ligação que ela tinha com essa entidade.



Desde que começou a freqüentar o grupo de estudos com o Nivaldo, seu contato com o mundo espiritual tornou-se mais centrado. Touro Sentado é seu guardião. Proteção especial para uma vida onde muitos assuntos precisavam ser resolvidos.



********************



Foi um período de aprendizado para todos. Conversávamos muito sobre tudo, principalmente sobre a vida. Vida real. Existência espiritual. De maneira ampla e profunda. Estudamos um pouco de astrologia, o Tio/Padrinho Rick ficou com a tarefa de fazer seu mapa astral. Revimos filmes como “Conversando com Deus”, “Brumas de Avalon”, ela releu “Ilusões” e mais do que isso: conversou consigo mesma no futuro. Com a sua escolha de futuro.



Descobriu realidades bem diversas e fez a escolha do equilíbrio. De fora, enxergamos tudo com mais clareza e as decisões ficam mais acertadas. Comprometeu-se, consigo mesma, a aproveitar esse tempo de parada para se resolver e finalmente, fazer a “lição de casa”. Vigiar suas atitudes e aprimorar conhecimento. Abrir seu coração. Não só com as mágoas e tristezas dessa vida.



Abrir o peito e perdoar.



Nosso histórico espiritual de encarnações recentes deixou marcas profundas que tinham que ser curadas. Perdoar é um remédio para quem perdoa. O perdoado, normalmente, nem toma conhecimento do ocorrido. Enquanto carregamos o peso da mágoa ela rasgará nossa alma, e volta e meia despertará, trazendo toda dor, medo, revolta, angustia e sofrimento.



No começo dessa história falei das minhas afinidades espirituais, mas omiti muitas coisas. Sempre tive uma repulsa pela Igreja Católica Apostólica Romana. Desde muito cedo pesquisei muito sobre a Inquisição, Cruzadas, Templários, e a cada conclusão, minha raiva crescia. E a Thabata sempre me acompanhou nesses estudos. Eles despertaram uma dor antiga em seu coração. Mas, nessa vida ela tinha essa missão como prioridade. Perdoar. Quem a fez sofrer a faria ressuscitar. A redenção do seu espírito teria que acontecer.



Episódios inexplicáveis, com queimaduras que apareciam de repente, visões extra-físicas, grupos que a acompanhavam de longe e a auxiliavam quando era necessário, e outros fenômenos passearam pela vida da pequena bruxinha, como alguns parentes chamavam, carinhosamente, a Thabata.



O tempo foi passando e os exames foram feitos. A aortografia resultou negativa. Suas artérias estavam intactas. A broncoscopia a mesma coisa, pulmão limpo como de um bebê. Ficamos felizes com o resultado, mas uma questão nos angustiava. Esses resultados apontavam para um prognóstico: cirurgia.



Um mundo mágico, colorido e encantador estava a cada dia se tornando mais cinza e sem brilho. O céu pareciam não estar ao alcance das nossas preces. O prognostico não havia mudado. O tumor era cada vez mais real e a cirurgia inevitável. Era o ponto final de toda poesia. Nenhum príncipe ou princípio encantado havia aparecido para tirar a linda princesa das garras do grande mal. Ela teria que invocar a força do seu samurai para sua grande batalha. Aquela para a qual havia treinado todo esse tempo.



Voltamos no Dr. Gibran com os exames nas mãos. Estávamos tensas. A Thata não queria fazer nenhuma cirurgia. Estava em um momento de ascensão no circo. Se operasse teria que adiar planos, rever projetos e prioridades.



Entramos na sala e apresentamos os exames, não só para o Dr. Gibran, mas para toda equipe, que examinou cuidadosamente todo material. A discussão demorou uns quinze minutos. A conclusão foi dolorida:



- Ela tem que operar. O tumor tem uns 12cm, pode ser considerado grande. – disse o simpático doutor, agora mais sério e determinado a convencer a Thabata.



- Mas, quais os riscos? – Perguntei – se fizermos um acompanhamento e a cirurgia não for feita agora?



- É difícil saber. Mas, podemos fazer isso. Nosso conselho é fazer a cirurgia. Gostaria que vocês comparecessem amanhã em uma reunião com a equipe toda na Santa Casa. Vamos submeter os exames para análise e decidir o melhor procedimento.



Concordamos com a reunião, afinal novos caminhos poderiam ser abertos.



Na manhã seguinte estávamos lá. Foi a nossa primeira visita na famosa Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. O prédio impressiona, não só pela sua grandeza, mas também pelo estilo. Aquele lugar nos trouxe muitas recordações. Parece um antigo convento europeu, onde grandes segredos foram guardados e mulheres condenadas à morte escondidas. Um mundo antigo há muito esquecido, mas sempre lembrado por nós.



- Olá, vamos lá para cima? A reunião já vai começar. – Disse um membro da equipe médica me tirando dos sonhos e obrigando-me a enfrentar a realidade.



Sem nem mesmo nos dar tempo de responder, seguiu pelo corredor e tivemos que apressar o passo para acompanhá-lo até o segundo andar onde eles se reuniram. Ficamos, nós e mais umas três pessoas, aguardando na ante sala.



A reunião demorou umas três horas, até que um dos médicos veio conversar conosco. Sem dizer muita coisa ele deixou claro que a única saída seria a cirurgia. Se já estávamos apreensivos, ficamos mais ainda. Estávamos pensando que essa reunião nos ofereceria uma solução e não uma confirmação. Percebendo que fazíamos perguntas que o jovem doutor não conseguia responder o Dr. Gibran se aproximou.



- Olá, como estão?



- Olá Doutor! Sinceramente, pensei que essa reunião pudesse nos explicar mais coisas e propor alternativas para a cirurgia. – Falei, já muito preocupada.



- O problema é que para o caso da Thabata não tem alternativa. O único procedimento é a cirurgia. Temos certeza de que é um tumor com características de ser benigno, mas só teremos certeza depois que a biopsia for feita.



- É possível fazer a biopsia antes da cirurgia? – Perguntei, já com medo da resposta.



- Não queremos correr o risco. Pode acontecer contaminação de outros tecidos durante o procedimento. Como a cirurgia tem que ser feita de qualquer jeito, faremos a biopsia depois. – Respondeu com tranqüilidade.



- Certo. Qual é o próximo passo?



- Vamos aguardar uma vaga. Desculpem, mas não tenho outra coisa a fazer. Quando ela surgir, entraremos em contato.



E essas foram as últimas palavras do Dr. Gibran. Saímos da Santa Casa em parafuso. Tumor. Cirurgia. Biopsia. Todas essas palavras ficavam como fantasmas gritando dentro de nós.



Aguardar por um dia que nem tínhamos uma previsão, para fazer uma cirurgia que não tínhamos certeza da necessidade.



Quando as coisas começaram a mudar? Porque tudo isso estava acontecendo? E se ela fizesse a cirurgia e algo desse errado?



Ela estava bem! Não sentia absolutamente nada. Nos últimos dias estava até treinando no circo novamente. Depois de saber que não tinham nenhuma fissura arterial, o circo passou a ser sua atividade diária. Seria justo tirá-la da sua vida em um momento tão feliz para colocá-la em um hospital? Permitir que transformassem o colorido mundo do circo em uma fria sala de cirurgia?



Misericórdia. Compaixão. Milagre. Cura. Os anjos, onde estavam? Faria qualquer sacrifício para encontrar um caminho sem dor. Não! Estava decidido! Essa história teria que ser contada de outra maneira.

Sobre o blog

Sempre tive o hábito de escrever, até então apenas para me entender melhor e às situações que que a vida me apresentava.

Após o acidente com a Thata, minha filha do meio, uma força eclodiu da minha alma e uma inspiração me "forçou" a escrever publicamente.

Eu sou Kathia Rosa, casada com o Cesar, mãe da Dayanne, da Thabata e do Ian, espiritualista, professora de culinária natural e vida saudável, e aprendiz da vida. Atualmente vivo esse momento de desafio espiritual onde o gatilho inicial foi o acidente da Thata. O final dessa história talvez nunca aconteça, por fazer parte de um processo muito maior que envolve muitas vidas... o destino tem caminhos misteriosos para nos conduzir à luz. Compreender esse processo é sublimar o sofrimento de cada passo e aprender a sentir cada momento, como uma gaivota que voa cada vez mais alto apenas pelo prazer de voar...