terça-feira, 18 de maio de 2010

Capítulo 4

A Busca


Uma criança pode sempre ensinar três coisas a um
adulto: ficar contente sem motivo,
estar sempre ocupado com alguma coisa,
e a saber exigir com toda a força
aquilo que deseja.

Foi uma escolha difícil. Estávamos decidindo entre a vida e a morte da nossa filha. O que tornava tudo mais complicado, era que não sabíamos qual caminho nos levaria onde queríamos chegar. Nem sempre a cura é a ausência da doença. Na maioria das vezes é um sinal. O que chamamos de doença é um sintoma de algo que não foi resolvido na nossa alma, e que não pode permanecer dessa forma. E assim, manifesta-se da maneira mais incômoda para nós, na freqüência em que vivemos: degenera, agride, mutila ou paralisa o corpo físico. Tudo para nos orientar em direção a consciência. Escolhas por vezes muito doloridas.


Cirurgia espiritual, Reiki, acupuntura, iniciamos uma busca para encontrar a solução. Várias questões surgiram. Dúvidas, questionamentos, medos. Aquela decisão podia estar condenando a Thata a morte, ou a vida. Colocamos a nossa fé em algo maior que, certamente nos faria tomar as decisões certas nos momentos necessários. E, assim fizemos...


A casa voltou a sua rotina, ou quase. Por mais que tentássemos pensar em trabalho, tudo parecia muito distante. A vida tentava se disfarçar de tranqüila, mas não dava. Tudo parecia muito irreal. Questionávamos nossos valores em relação a vida. Nada era mais importante do que encontrar um caminho e ajudar a Thata a se resolver.

O trabalho foi perdendo a força e os cursos, palestras e até mesmo o programa da rádio que eu adorava foi se desfazendo. Tentava colocar toda minha energia no trabalho, dependíamos totalmente dele para sobreviver. Mas, os ouvintes pareciam perceber que minha alma não estava presente. Faltava inspiração.

Evaldo Ribeiro, um grande amigo e brilhante comunicador da Rádio Mundial era responsável pela parte técnica do nosso programa, que era veiculado todas as segundas-feiras às 7hs. Graças a sua presença de espírito e a sua força conseguimos manter o programa por mais alguns meses. Tudo foi acontecendo como um dominó. Uma coisa foi empurrando a outra e a sensação de que tudo estava apenas começando era tão dolorida quanto uma chama queimando no peito. Apesar do nosso desejo de nos desvincularmos de tudo para nos dedicarmos exclusivamente a Thata, isso era muito, mas muito complicado. Tínhamos compromissos financeiros e não cumpri-los traria consequências desastrosas para nós, e também para outros. Mesmo sabendo disso, a dificuldade de concentrar energias para realizar nosso trabalho era evidente. E, isso fazia com que, dia-a-dia ele fosse minguando, e com ele nossos recursos financeiros foram ficando cada vez mais reduzidos e nossos problemas cada vez maiores.

Em contrapartida, a Thata resolveu se dedicar cada vez mais ao circo. Iria se aperfeiçoar, treinar, se apresentar e realizar tudo com que sempre sonhara. Sua inspiração continuava sendo O Teatro Mágico, um grupo de arte independente que mescla música, circo e poesia com grande maestria.

Todo o sonho do circo começou quando ela assistiu um vídeo deles no youtube, com a música Fé Solúvel. http://www.youtube.com/watch?v=1nJd9ckBdVE . Fernando Anitelli no Piano e Gabi Veiga no Tecido. Daquele dia em diante sua vida daria um salto. Onde as pessoas viram apenas uma bela música e uma linda apresentação de acrobacia aérea, a Thata enxergou seres encantados. Aquela fada, voando no tecido, despertou seu espírito para a arte, e a música que a fazia voar, entoada por um mago disfarçado de palhaço, embalou seu destino e a faria desafiar sua fé.   

Para se inspirar e aprender novos truques, no tecido e no trapézio, passava horas assistindo seus vídeos youtube. Além do aprendizado, isso a fazia relaxar e sonhar. Músicas inspiradas, movimentos harmônicos, coloridos e brilhos celestiais....

A Lígia, sua professora no Clube Escola Jardim São Paulo e na Mooca, era mais uma das suas musas inspiradoras. Forte, determinada, habilidosa e se tornou uma grande amiga de todos em casa. Como a Thata treinava todos os dias, as duas estavam sempre juntas. Treino vai, treino vem, a lígia, vez em quando convocava a Thata para auxiliá-la nas aulas. Com isso ela foi ganhando habilidades de professora. A criançadinha foi gostando do assunto, ela começou a ensinar aéreos para a turminha e quando menos esperava o Gil e a Cássia (mantenedores do Projeto do Circo nos Clubes Escola de São Paulo) a chamaram para ser professora em um pólo.

Antes de oficializarem o trabalho conversaram conosco para saberem se a Thata iria fazer a cirurgia e se a mesma já estava programada. Como já tinhamos decidido que o caminho era outro, pelo menos naquele momento, tudo ficou mais fácil e a Thata foi contratada.

Ela ficou radiante com a proposta e nem pensou duas vezes pra aceitar! Tudo parecia conspirar para que o circo estivesse todos os dias presente na sua vida.

O colorido daquele mundo fantástico de luzes, cores, trapezistas e bonecas de pano fazia com que o “peso” da sombra, sempre presente do tumor, ficasse quase imperceptível para ela. Assim, nós, eu, Cesar e Ian estávamos em praticamente todas as suas apresentações, mesmo que nas mais corriqueiras, como aos sábados e domingos quando ela se apresenta apenas para “fechar” o treino com os alunos. Era como ver um lindo arco-íris num dia de trevas e tempestades. A chance de uma fada ou anjo ouvir o seu chamado é muito maior.

De outro lado, continuavam as buscas para uma solução sem traumas. Sempre que uma porta se abria para conversarmos com alguém sobre o caso da Thata e pedir uma indicação, não deixávamos que passasse em branco. E foi em uma dessas oportunidades que surgiu a indicação de um medium japonês, conhecido como Professor Hirota, muito famoso lá pelos lados de Atibaia, onde já tinha conseguido resultados maravilhosos, inclusive a cura de um câncer na garganta de um famoso apresentador de televisão, que por gratidão, doou uma casa onde ele realiza atualmente seu trabalho, com mais conforta para aqueles que pedem seu socorro. O Cesar chegou com a informação e já começamos a pesquisar e planejar a nossa pequena peregrinação até lá.

Pesquisamos, telefonamos, agendamos e só então conversamos com a Thata. Eu já sabia que ela iria resistir o quanto pudesse. Sua fé estava abalada. Se uma folha não cai de uma árvore que não seja pela vontade de Deus, a quem ela iria recorrer? Ao mesmo que permitiu seu martírio? O que faria Deus mudar de ideia de forma tão repentina? - Coloquei o tumor lá, mas já que ela está pedindo, vou tirar!

Para que a verdadeira fé e o verdadeiro Deus apareça, é preciso questionar todas as suas crenças, abalar todas as suas estruturas e permitir que as frágeis desmoronem de vez.

Desiludir-se!

Tirar todos os véus e escolher estar consciente da verdade. Assumir a responsabilidade por si mesmo é um aprendizado. O Cristo, ou Khristós, que foi literalmente arrancado de cada um de nós para ser personificado na imagem de Jesus, como se ele fosse o “único” filho de Deus feito homem. Como já relatei no início, tenho uma grande admiração por Jesus, mas ele nada tem a ver com a imagem criada pela igreja católica. Antes do famoso e histórico Concílio de Nicéia, Jesus era um dos profetas, o que não o desmerece em nada. Mas, transformá-lo em Deus vivo foi o grande, senão o maior crime, cometido pela Igreja: aprisionar o Cristo, potencial divino presente em todos nós, no corpo de um único homem chamado Jesus. Trazendo para a humanidade um período de escuridão espiritual e dor que ainda estamos vivendo. E, por mais que sua educação não seja dentro dessas crenças, elas estão presentes em todos os lugares, fazendo com que seu inconsciente esteja repleto delas. Achamos que não acreditamos. Que somos conscientes do nosso potencial de superação. Que estamos no comando e, quando necessário, teremos todo equilíbrio para acessar esse potencial e ativá-lo. É preciso estar de frente com o problema, a crise, a dor para perceber que todas essas convicções são absolutamente superficiais. Quando testadas, sucumbem!

Assim, insistimos com a Thata e, mesmo contra sua vontade, ela foi. No banco de trás do carro, blusa preta de capuz, óculos escuros, mp3 com fone de ouvido e uma tremenda dor nas costas. Essa dor não era nova e depois da queda piorou. Saímos cedo de casa. Tínhamos que chegar até as 10hs para pegar uma senha e sermos atendidos. Mesmo errando um bocado o caminho, conseguimos chegar. O trabalho é bem interessante, não há cobrança de taxas, nem nada do tipo. Começa com uma palestra que ressalta o potencial criativo e divino presente em cada um de nós. Ninguém é vítima, construímos nosso destino. Caminhos tranquilos, cheios de pedregulhos ou com montanhas intransponíveis....tudo é possível. Na sequência acontece o atendimento individual, que é bem rápido, por sinal. Uma fila é organizada com os números das senhas em sequência por ordem de chegada. E, assim, cada pessoa permanece na frente do Professor Hirota, por no máximo, 1 minuto. A pessoa diz a ele qual o problema e aponta o local no corpo. Ele coloca um curativo de gaze com esparadrapo no local e orienta o retorno, caso seja necessário. No caso da Thata ele pediu que ela voltasse em 15 dias, e para ela não operar.

Para surpresa, minha e do Cesar, a Thata saiu do atendimento muito bem. A dor nas costas tinha passado e ela estava até com fome. Com isso, ficamos todos muito animados. Aproveitamos o sábado juntos e paramos na estrada para comer alguma coisa.

Algo, naquela passagem de 1 minuto, fez a Thata começar a repensar suas crenças. Ela estava mais confiante e tranquila. O arco-íris ficava cada vez mais visível na tempestade.

Ao mesmo tempo, ela recomeçou o trabalho com o Nivaldo, frequentando as manhãs de sábado no espaço comandado por esse grande amigo, orientador e companheiro de jornada.

A Thata passou por um conjunto de orientações, energias, mentores, limpezas, físicas e espirituais. Tudo para rearranjar seus corpos: mental, emocional e energético. Havia uma grande preparação no plano espiritual, e essas “buscas” faziam parte dela.

Ainda na intenção de encontrar alguém que pudesse dar um prognóstico diferente de cirurgia, procuramos um antigo amigo do César, o Geraldo. Colega de escola, na época o chamado ginasial, hoje, ensino fundamental. Eles se tornaram amigos espirituais, aqueles que nem a distância ou o tempo são capazes de separar. O Geraldo, se estabeleu como médico em Santa Bárbara d'Oeste, interior de São Paulo e com certeza poderia nos indicar um caminho. Alguém para dar uma segunda opinião ou mesmo um tratamento alternativo. No mesmo dia o Cesar fez contato, explicou a situação e ele nos indicou um especialista no assunto e médico na cidade de Santa Bárbara. Disse que falaria com o colega de profissão, e marcaria um dia para que fossemos até lá com os exames para que ele pudesse avaliar. E assim aconteceu.

No dia marcado acordamos no horário de sempre, por volta das sete da manhã. O dia estava cinza e a consulta estava agendada para as 17hs. Ainda deitada, percebi que o Cé havia levantado, talvez para ir ao banheiro e abrir as gaiolas do Ghandi e do Ashtar.

- Ghandi, oi passarinho. Ghandi!!!

Era o Cesar falando com nossos pássaros. Mas havia algo de errado no tom da sua voz e na sua insistência em chamar o Ghandi.

- Ká, acho que o Ghandi morreu! - Gritou o César, já em desespero, para mim.

Levantei da cama num pulo só e corri para a sala. Não, não podia ser real. O Ghandi foi nosso primeiro pássaro. Ele veio como um presente. O Ashtar chegou alguns meses depois como um companheiro para o nosso meigo guardião. Todos nós éramos muito apegados a ele, mas no caso da Thata era diferente. Ela havia encontrado no Ghandi uma energia que ainda não conhecia. Alguns animais conseguem acessar a nossa alma, “puxar” o melhor que existe em nós. E assim era com ele. De repente, começava a assobiar, desafinadamente, o começo do hino nacional, e um sorriso, quase que instintivo, surgia no rosto de todos os presentes. Doce, meigo, sensível. Um amigo para todas as horas. Por várias vezes a Thata ficava com ele no ombro, por horas, e isso, de alguma forma, a fazia recuperar o ânimo.

Quando cheguei na sala o César estava com o corpinho dele nas mãos, já sem vida. Aos prantos, peguei nosso pássaro nas mãos, ajoelhei no corredor da sala e o aproximei do meu coração. Senti uma dor no peito e uma voz, dentro da minha cabeça gritou:

- Uma vida pela outra! Ela será salva, mas ainda terá que operar.

Num momento, toda aquela história fazia sentido. O Ghandi tinha um ferimento no peito. Resultado de uma asa cortada de maneira errada por um gênio do mal, um senhor dono de um petshop, que onde sua mão toca a energia se esvai. Infelizmente quando percebemos isso o Ghandi já tinha morrido. Coincidência, ou não, a asa mal cortada era a direita, o mesmo lado da cirurgia da Thata. Esse ferimento era uma abertura, um corte e nossa doce calopsita sofria a cada vez que tinha que tratá-la, limpar e passar um anti-inflamatório. Durante 2 meses, aproximadamente, seguimos a risca o tratamento, e quando , enfim, o corte fechou, ele morreu. Saiu voando do puleiro, caiu de mau jeito e morreu. A sensação que eu tinha resumi-se em uma palavra: SACRIFÍCIO.

Nosso pássaro, mensageiro dos deuses, havia levado consigo uma parte do sofrimento que a Thata teria que passar. Sofreu em seu lugar. Dividiu, com ela, a sua dor.

Chorei. Chorei. Lamentei. Gritei de dor. Ele continuou inerte e sem vida. Aquele que, muitas vezes nos abençoou com seu canto e sua alegria, nos fazendo despertar do transe dessa vida automática que, muitas vezes, levamos, já não fazia parte do nosso mundo.

Não adiantava mais chorar. Levantei do chão, fui no nosso quarto e peguei um antigo lenço indiano que tinha o hábito de amarrar no pulso, significando força e renascimento. Enrolei-o e o coloquei num pequeno altar que mantinha na sala. Fiquei paralisada por algum tempo, olhando para aquela realidade que nenhum de nós tinha forças de enfrentar naquele momento.

A Thata e o Ian ainda estavam dormindo e decidimos que seria melhor acordá-los e contar o quanto antes, o que tinha acontecido. Foi difícil. Dolorido. Indescritível. Todos passamos o dia com a sensação angustiante da perda. Choramos. Choramos. Choramos.

A hora de sair para Santa Bárbara chegou e decidimos colocar o corpinho do Ghandi no carro, para talvez enterrá-lo na estrada. A viagem foi triste e silenciosa. Chegamos um pouco atrasados, mas o Dr. Marco Aurélio, nos recebeu com muita simpatia e de forma muito carinhosa. A Thata, que mais uma vez resistiu em nos acompanhar, estava presente apenas na aparência, seu espiríto não estava alí.. Ele começou olhando as tomografias e os exames que levamos. Sua perplexidade com a situação foi notória. Tumor grande, entre o coração e o pulmão, assintomático e em uma pessoa com atividade física intensa. Como ela podia não sentir absolutamente nada?

- Thabata, você não sente nada? - Perguntou o Geraldo, também um tanto surpreso.

- Não. - Respondeu a Thata, já acostumada com o susto dos médicos quando viam seus exames pela primeira vez.


A conversa se estendeu de forma tranquila. Eles faziam questão de nos explicar todos os pontos que, para nós, ainda pareciam nebulosos. Com extrema paciência tentavam esclarecer as nossas dúvidas. Para nossa surpresa, o Dr. Marco conhecia a equipe da Santa Casa que estava nos atendendo, e confirmou o que já sabíamos: eles eram referência em Cirurgia Torácica e, ela não poderia estar em melhores mãos. A solução era realmente a cirurgia.

Saímos do consultório e fomos comer uma pizza, até mesmo para ter um tempinho de conversarmos com o Gê, como o Cesar o chama. Falar de outras coisas e, assim, tentar esfriar um pouco a cabeça e aliviar os temores.

Podia ver a tristeza estampada nos olhos da Thata. Queria poder dizer a ela que tudo daria certo. Que fazendo ou não a cirurgia tudo ficaria bem. O problema é que eu só conseguiria dizer isso, a ela principalmente, se eu acreditasse nessas afirmações. E, naquele momento, aquilo tudo me assustava.

- Thata, calma! Falei segurando a sua mão. - Eu vou estar sempre do seu lado.

*********************

Os treinos continuavam, e além de dar aulas no Clube Escola ela participava do grupo do Rob. Ele já havia sido seu professor de solo e saltos, quando ela era apenas aluna no projeto. Aos poucos tornou-se amigo e reconheceu nela um potencial que podia ser desenvolvido. Todos os sábados à tarde ela passava treinando, forçando, aprendendo...lutando!

Desses treinos surgiu a possibilidade de uma apresentação em uma universidade. Bom público. Oportunidade de aparecer e crescer. Mais ensaio, mais treinos...

Nesse ritmo as coisas estavam cada vez mais mascaradas. Quando a dor nas costas piorava corríamos com ela para o acupunturista, o que ajudava e conseguia o esperado: eliminar a dor. No dia a dia tudo caminhava. Mas, internamente, eu não conseguia pensar em outra coisa um só minuto. Por vezes parava diante do computador para desenvolver um trabalho, ou mesmo para responder um e-mail e as palavras ou a resposta, não engatilhava. Juntando a falta de inspiração com a proximidade do final do ano, quando ninguém mais quer saber de fazer curso ou se aprimorar em alguma coisa, nossa situação financeira ficava mais perigosa a cada dia.

Passaram-se os quinze dias e voltamos no Professor Hirota. Dessa vez, já conhecíamos o caminho e chegamos bem antes do horário. Dia claro e ensolarado. Fizemos o procedimento já conhecido: senha, espera, palestra, fila para passar pelo professor por 1 minuto. Dessa vez, todos pegamos uma senha. Só o Ian não quis nos acompanhar, nem mesmo na viagem. Pra mim foi uma experiência interessante, estava com uma dor de cabeça constante e quando ele colocou o curativo, foi como se aquele ponto tivesse toda minha atenção a partir daquele momento. A dor passou. Fiquei com uma sensação de paz e relaxamento. Na sua vez, a Thata relatou o mesmo problema, foi quando ele respondeu:

- Não tem tumor! Não tem nada aí!

- Tenho que voltar? - Perguntou a Thata.

- Não. Você está bem.

A Thata saiu de lá pisando em nuvens.

- Mãe, ele disse que eu não tenho nada. - relatou radiante.

Eu fiquei sem palavras. Para nos certificar que aquilo era real teríamos que fazer uma tomografia. Que só aconteceria no começo do ano, e ainda estávamos em novembro.

- Nossa, Thata! Como você está se sentindo? - Perguntei

- Ah mãe, sei lá! Eu estou bem. Minha dor nas costas passou. Acho que pode ser verdade.

Voltamos para casa pensando naquilo tudo. O tempo passou. O dia da primeira apresentação da Thata e do Toni depois da queda, havia chegado. Mudaram a música, mas o número era o mesmo. Apenas um detalhe, na famosa volta do cristo havia sido alterado, mesmo porque, ela estava bem, mas ainda não tinha recuperado toda sua força e confiança. Por outro lado, nós, também não estávamos recuperados. O medo ainda nos assombrava. Mas, em momento algum deixávamos transparecer. Ela precisava confiar em si mesma, no seu trabalho e em todo tempo que tinha dedicado a treinamento intenso. Afinal, ela tinha se transformado de boneca de pano em trapezista.

Como sempre, nos propusemos a ajudar. Levamos a Thata e auxiliamos com o som. Era um espaço muito bom, a praça de eventos estava montada. A estrutura onde o trapézio e o tecido seriam instalados estava muito bem colocada, proporcionando uma boa visão de qualquer ângulo. Tudo certo. O show iria começar a qualquer instante!


Apresentação do Circo Olímpico:

Tecido: Nerissa

Double Trapézio: Thata e Toni

Lira: Tatá 2

Solo: Rob, Allan, Pulga e Neto

Tudo estava correndo bem. Música, luzes, acrobacias....Até que o Toni entrou e começou a sua performance individual que precede o Double em parceria com a Thata. Meu coração disparou, sentia que ele explodiria a qualquer instante. Tentei respirar pausadamente e me tranquilizar. Repeti várias vezes, silenciosamente:

- Calma! Respira! Vai dar tudo certo.

Mas, eu sabia que , a cada segundo que passava, mais a entrada da Thata seria inevitável. Assim, meu coração parecia disparar a cada respiração.

De repente ouvi os já esperados gritos da platéia em delírio: abri os olhos e lá estava ela subindo no trapézio!!! Nada mais a poderia impedir. Ela já estava voando outra vez nos braços dos seus sonhos de bailarina do vento, permitido apenas para bonecas de porcelana que se transformaram em gente através da generosidade de alguma fada solitária.

O medo me fez fechar os olhos, virar de costas para o trapézio e rezar para que os senhores do tempo acelerassem os relógios e acabassem logo com o meu martírio, mas que mantivessem eternos os momentos de glória Thata.

Aplausos.... assobios.... TERMINOU!!!!

Abri os olhos e corri para abraçá-la e dar os parabéns!

- Lindo, Thata! Foi lindo, parabéns!!!! Falei, enquanto enchia ela de beijos.

Só no dia seguinte tive coragem de contar que, durante a apresentação, tinha virado de costas e fechado os olhos, como se uma das duas coisas já não fosse suficiente! Ela ficou brava, achando que eu não confiava na sua técnica. No fundo, eu sei que ela me entendeu.

********************
A vida se fez montanha de repente,

e para fugir da dor corremos em direção ao abismo...

Loucos voadores, sem medo e sem coração...

Os anjos nem sempre estarão a sua disposição.

Levem a vida para casa e escondam embaixo do travesseiro.

Sonhem com a morte e acordem embaixo do chuveiro.

Embriagados de ilusão...Despertem!!! Ainda é tempo!!!!

Resgatem a vida que guardaram no travesseiro, suguem-na, ouçam-na....

Não importa se é montanha ou lindo jardim,

importa é sentir o cheiro da terra,

o calor do sol,

os pés no caminho...

e o coração? No destino.

********************

Com o circo ocupando vinte e seis horas do seu dia, a Thata resolveu se aperfeiçoar ainda mais. Entrou para o CEFAC – Centro de Formação Profissional em Artes Circenses. O centro se propõe a formar profissionais competentes na área e sua duração varia de acordo com a evolução individual do aluno e a especialidade escolhida. Um novo desafio. Audição marcada para dia 12 de dezembro de 2008.

As coisas pareciam estar mais calmas, pelo menos no que se referia a situação da Thata. Ela estava bem, com disposição para treinar e animada com o novo trabalho. Na nossa fantasia era como se o tumor fosse apenas uma sombra que, a cada dia, se tornava menos visível.

O dia da audição no CEFAC chegou e, como era de se esperar a Thata passou, com louvor. Desempenho fantástico. Ela voltou pra casa muito, mas muito feliz! Uma nova vida começaria no ano seguinte. Carreira profissional garantida e grandes possibilidades de se aperfeiçoar no exterior nos próximos anos - O CEFAC mantem convênios com escolas de circo em outros países.

A vida estava mais florida. Apesar de saber que os espinhos permaneciam presentes, não os via, e isso já era um grande alívio. Algumas brechas de sol se mostravam presentes no céu tempestuoso. Dali em diante apenas a mão de um anjo poderia nos conceder o retorno a tranquilidade do dia antes da queda, ou quem sabe, para algo ainda melhor. Mas para isso, ele teria que cair também. Descer nos mundos inferiores e resgatar a alma de uma menina-mulher. Presa nas suas próprias fraquezas e incertezas, e ajudá-la a reencontrar seu caminho.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Capítulo 3

Santa Casa de Misericórida














Assim como Jesus, que ressuscitou e ascendeu aos céus no terceiro dia, a Thata finalmente saiu do hospital. Voltou para casa escoltada por mim, pelo Cesar e pelo seu tio/padrinho Ricardo. Amigo há muitos anos nessa vida e provavelmente há muitos séculos em uma visão mais ampla. O Rick, como o chamamos, sempre esteve junto nas horas boas e más. Nossos filhos sempre o chamaram de tio, e as pessoas inevitavelmente pensavam que os dois, César e Ricardo, são irmãos. Apesar de fisicamente não haver nenhuma semelhança, espiritualmente a afinidade é evidente. Sempre foi um grande apoio emocional e nessa hora não foi diferente. No caminho fomos conversando sobre tudo que estava acontecendo, tentando mostrar para a Thata que havia opções, tanto no sentido do diagnóstico, quanto da cura. A escolha estava nas mãos dela. Afinal, ainda havia a possibilidade de não ser exatamente um tumor. Exames seriam feitos e dúvidas seriam esclarecidas.



Na hora de dar a alta o Dr. Getúlio nos instruiu sobre todos os cuidados, além de uma carta de encaminhamento para a Santa Casa, diretamente para um médico que passaria a dirigir o tratamento dali em diante. Ela seria atendida pela equipe especializada em cirurgia torácica, referenciada como a melhor do Brasil. Era o começo do fim de semana e na próxima terça-feira o Dr. Gibran estaria nos aguardando. Pediram urgência e ela seria atendida rapidamente. Apeguei-me a expectativa de um diagnóstico diferente, a possibilidade de um erro. Apesar do meu coração dizer que “algo” já estava sendo traçado em outro plano.



*Diz Elias, o profeta:

Existem momentos em que o infortúnio

irrompe na nossa vida e não o podemos evitar.

Mas ele existe por alguma razão.
O Ian estava em casa, ansioso para ver a irmã. Como ele tem pavor de hospital, não a via desde o dia da queda. Quando chegamos, fui percebendo a emoção da Thata de estar, finalmente, em casa. O Cesar abriu a porta enquanto eu a apoiava para que ela entrasse. Nesse momento, o Ian veio ao nosso encontro, feliz por vê-la em casa. Ela estremeceu.... A visão do irmão despertou a sua memória de tudo que talvez teria que abandonar – os sonhos que deixou caídos embaixo do trapézio. Ela abraçou o irmão e chorou desesperadamente! Eu sabia o que passava pela sua cabeça, tinha medo de não voltar a vê-lo, de que aquela cena não acontecesse. Choro. Lamento. Medo. Dor. Mudanças... muitas mudanças!







Os próximos dias se tornaram um misto de felicidade e medo. Felicidade por ela estar em casa, colorindo novamente a vida de todos. Medo pela expectativa de não saber o futuro dali em diante.



Era bom vê-la brincando com os passarinhos, Gandhi e Ashtar, nossas duas calopsitas. Pássaros são conhecidos como mensageiros dos deuses, e esses são realmente especiais. Gandhi é o retrato do indiano do qual adotou o nome, calmo, tranqüilo, às vezes até medita. Já o Ashtar é o próprio comandante. Agitado, inquieto, se acha o dono do pedaço.



Por incrível que parece eles conseguem se entender. De manhã é sempre muito bom vê-los na janela, olhando a paisagem e, na nossa fantasia, guardando a casa.



Durante esse período, ela recebeu todos os tipos de visitas, dos amigos, da família, dos seus anjos e dos seus demônios. Era a sensação de estar no limbo, onde nenhuma decisão pode ser tomada e nenhum caminho definido.



A vida a fez parar. Nossa cultura valoriza o mundo externo, as aparências, e faz com que isso seja definido como realidade absoluta. A consciência não deixa essa atitude passar impunemente, e o preço pode ser alto. “Onde não há visão as pessoas se perdem”, mas para se ter a visão é preciso sabedoria, além da disposição de olhar para dentro.



Fugir de nossos anjos, demônios, deuses e deusas interiores pode desencadear crises pessoais, ou de um modo mais violento, uma parada involuntária. Era assim que eu enxergava a situação da Thata. Um anjo abraçando sua alma com suas asas e dizendo:



- Deixe a luz do seu coração se expandir! Você tem compromissos assumidos em outros tempos para cumprir.



Parece muito místico ou fantasioso, mas para mim sempre foi muito claro. Essa passagem me lembra de uma época em que eu morava no Mato Grosso do Sul, durante meu primeiro casamento com o pai da minha filha mais velha, a Day. Costumava ficar sozinha durante todo o dia. Uma moça me auxiliava no trabalho com a casa e, quando eu precisava, ela ficava com a Dayanne, que, na época, tinha 10 a 11 meses. Em dias claros, logo no começo da tarde, gostava de ir a um ribeirão que ficava a uns 10 minutos de caminhada. Era uma descida íngreme, mas aquele lugar era de uma paz sem igual. Uma energia que invadia minha alma. Sentia a natureza! Podia ouvi-la e compreendê-la. Sempre que me lembro desse lugar e das experiências que tive, sinto uma a força de uma presença que ainda me acompanha.



Em um determinado dia a experiência foi marcante. Sei que estive no local e falei com alguém, seres que não pertencem a esse mundo. A mensagem veio como um bloco. Sentia a brisa tomar conta de mim. Um perfume doce, paz, e um sentimento profundo de que havia recebido um chamado. Uma lembrança antiga havia sido despertada. Mudanças precisavam ser feitas. Por algum motivo saí correndo de lá, estava acostumada a subir o morro a pé, mas naquele dia, logo que saí da mata encontrei um lindo cavalo, todo branco, pastando livre. Parece loucura, mas senti que ele estava me esperando. Tanto que, quando me aproximei, ele nem resistiu. Estava sem sela, mas isso não me impediu de montá-lo. Ele subiu o morro e seguiu pela rua até me deixar em frente de casa. Depois desse dia nunca mais voltei no ribeirão. Até hoje não sei explicar como fiz aquilo. Adoro cavalos, mas não tenho esse domínio com eles. Tenho 1,63m de altura e o cavalo estava se sela!?!?!?! Lembro-me de não ter dúvidas...olhar para o cavalo, montar e chegar em casa. Tenho certeza de que não foi uma fantasia, até por que teve o lado desagradável da história, como por exemplo, o suor do cavalo nas minhas pernas. Estava sol e eu vestia uma bermuda curta. Minha pele estava em contato direto com o pelo do cavalo, o meu suor misturado com o dele resultou em uma espuma branca que me fez correr para o banho e ficar alguns minutos seguidos tirando “aquilo”.



Por algum motivo aquele episódio me fez tomar a decisão de me separar do meu primeiro marido e voltar para São Paulo. Não seria fácil, eu tinha 17 anos, uma filha e um marido que não queria a separação. Além disso, morava a três dias de viagem de ônibus de São Paulo.



Estava determinada, e o que eu sentia era mais forte, e em meio a brigas e discussões vim em busca do meu destino. É um caminho que todos têm que enfrentar em algum momento da vida. Faça o caminho de bom grado ou a vida vai obrigá-lo. Não espere por isso, pode ser dolorido.



- Olhe para si mesma. Esse é o seu compromisso. – Conselho do anjo. Desafio dos demônios.



A Thata havia sido parada pela vida. Estava indo de encontro a seu destino. Hora de enfrentar e crescer. Parar para olhar para dentro de si mesma e redescobrir seu caminho real. Quando o corpo pára, a mente entre em colapso. Fica buscando artifícios para distrair a consciência e não permitir que olhe para si mesma. Descobrir a verdade pode ser perigoso para a mente, por que ela vai perder o posto de comando. Então, ela te distrai. Faz você olhar para fora, para longe, quanto mais, melhor. Faz truques de ilusionismo que chamam a atenção de maneiras bem convincentes. A sua fuga de si mesma, estava com os dias contados. Era chegado o momento do seu reencontro. Rever. Retomar. Resolver. Encarar. Resolver. Resolver. Escolher.



A terça-feira chegou e fomos ao ambulatório da Santa Casa. Mediante apresentação da carta fomos atendidos prontamente.



- Yabata? Eu detesto errar nomes! Falei certo? – falou brincando o simpático médico dirigindo-se a Thata.



- É Thabata! – ela respondeu rindo.



- Há! Esse pessoal parece que não sabe escrever!!! – Entrem para podermos conversar!



Ele nos deixou bem a vontade desde o início. Era um médico jovem, mas tinha muita experiência. Olhou os raios-x, as tomografias e fez várias perguntas. Contamos em detalhes tudo que ocorreu. O trapézio, o tombo, o provável tumor...



- Realmente, tem uma massa no mediastino. Vamos precisar de mais exames. Pelos que trouxeram não tem como saber detalhes importantes. Pela aparência, parece ser um tumor. Mas, também pode ser que a queda tenha provocado uma micro fissura em uma artéria, e essa massa seja sangue coagulado. Também tem a possibilidade de ser um tumor e estar no pulmão – falou o médico, já num tom de preocupação.



Foi como receber um golpe de espada. Mesmo sabendo do provável diagnóstico, levei um segundo choque. O tumor poderia estar dentro do pulmão????



- E quais são esses exames? Quando podem ser feitos? – Perguntei.



- Bom, tem duas alternativas! Uma é solicitar os exames, pedir urgência e esperar vaga. Isso vai demorar até uns dois meses.



- E a segunda? - A Thata perguntou.



- A segunda é interná-la e fazer os exames em três a quatro dias!



- Não! Eu não quero ser internada de novo. Não! Mãe, por favor, não! – Respondeu a Thabata, já aos prantos.



- Calma, Thata! – Falou o Dr. Gibran – Ninguém vai internar você à força!



Os recentes três dias no hospital, 18hs na prancha, sem nenhum objeto pessoal e sem nada que pudesse ler, desenhar, etc... a deixaram com uma péssima impressão da palavra “internação”. Por isso, quando Dr. Gibran ofereceu essa opção, mesmo adiantando o processo, ela relutou bravamente.



- Thabata, tenho que ser claro com você. – Disse Dr. Gibran - Se essa massa for sangue, resultado de um rompimento arterial, o risco é grande. Você não pode fazer nenhum esforço físico durante esses dias. Caso contrário, a artéria pode romper novamente e causar uma hemorragia interna, e vai ser quase impossível te socorrer. Entendeu? Você tem que fazer repouso.



-Quer dizer que não posso voltar para as minha atividades normais? – Perguntou a Thata.



- Depende. Se você estiver falando dos treinos e do trapézio, não.- Disse Dr. Gibran.



- Thabata, é sério. Por um tempo, até termos os resultados dos exames e sabermos exatamente o que é isso e resolvermos o problema, você tem que fazer repouso. Não precisa ficar em casa deitada, mas também não pode sair por aí voando no trapézio. Entendeu?



Ela fez que sim e baixou os olhos, provavelmente pensando: - amanhã vou treinar!



Dr. Gibran fez então o pedido dos exames: aortografia e broncoscopia. O primeiro para investigar a possibilidade de um rompimento arterial e o segundo mostraria se havia comprometimento pulmonar.



Voltamos para casa pensando se a opção da internação não seria a mais acertada. Cortava o meu coração pensar em vê-la internada novamente, mas tudo seria resolvida mais rapidamente.



Naquela noite, ela conversou, através do MSN, com seu primeiro instrutor no KENJUTSU, o Nejem. Sempre teve grande admiração por ele, e sendo assim, sua opinião era muito importante. Tanto que ele a convenceu que a internação seria a melhor opção para resolver as coisas mais rapidamente.



No dia seguinte, pela manhã, eu e o Cesar, fomos até a Santa Casa para avisar o Dr. Gibran de que ela havia concordado com a internação. Já era tarde, a vaga estava ocupada.



O destino tem caminhos incompreensíveis
quando nosso foco está apenas no presente.



Foram dias difíceis. A Thabata tinha que fazer repouso, e não fazia. Tínhamos que brigar para que obedecesse. Fomos obrigados a conversar com amigos e professores do circo, para que não permitissem que ela treinasse enquanto o médico não liberasse.



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Às vezes ficava pensando se ainda estivéssemos trabalhando no restaurante. Fazia apenas 4 meses da desistência do projeto. Por um lado, foi triste e difícil desistir de tudo, ele era uma parte importante, tanto no aspecto financeiro quanto no profissional. Resultado do esforço de um ano negociando com a Federação Espírita do Estado de São Paulo. Eles estavam com toda estrutura reformada e procuravam alguém para ativar o seu funcionamento.



Procuramos um parceiro, e conseguimos colocar em prática. A maior dificuldade nossa foi assumir um restaurante onívoro. Para nós, vegetarianos há mais de 20 anos, era difícil trabalhar com carnes todos os dias. Quando começamos essa negociação partimos do princípio de que toda casa espírita Kardecista tem uma indicação para a diminuição do consumo de carne, no mínimo da vermelha. Não era o caso da Federação. Para a Presidente, na época, isso não fazia parte da filosofia. No contrato havia uma cláusula que nos obrigava a servir todos os tipos de carnes, todos os dias. E assim, um contrato de seis anos se desfez em um ano e meio. Já tínhamos algumas pendências financeiras para resolver, com o fechamento do restaurante elas cresceram....



Na ocasião já estava fazendo o programa na Rádio Mundial. Estava indo bem, audiência crescendo, os cursos sempre lotados. Podia fazer meus horários e o Cesar também. Nesse momento a situação era ideal para podermos dar mais atenção para a Thata.



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Procurava estar mais em casa, conversar e saber como ela estava se sentindo em relação a tudo aquilo. Em uma dessas conversas ela me falou de um sonho que teve:



Ela estava em uma cama de hospital com muitas pessoas em sua volta. Sentia que “algo” estava errado. Em seguida, um médico com aparência de peruano pega seu braço e começa a apertar em vários pontos, como que procurando o melhor ponto para um injeção. Na outra mão ele tinha uma agulha, grande, em comprimento e diâmetro. Assustada, a Thata puxa o braço da mão dele. Uma enfermeira, que estava ao seu lado tenta acalmá-la:



- Fique tranqüila. Esse é o Dr. Touro Sentado.



Ela então, devolve o braço e ele faz vários furos com a agulha. Institivamente , ela tenta estagnar o sangramento com a mão.



- Não. Tire a mão. Deixa sangrar. É necessário.- Diz o Dr. Touro Sentado.



O sonho parece muito real, para ela naquele momento. Sem contar a ligação que ela tinha com essa entidade.



Desde que começou a freqüentar o grupo de estudos com o Nivaldo, seu contato com o mundo espiritual tornou-se mais centrado. Touro Sentado é seu guardião. Proteção especial para uma vida onde muitos assuntos precisavam ser resolvidos.



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Foi um período de aprendizado para todos. Conversávamos muito sobre tudo, principalmente sobre a vida. Vida real. Existência espiritual. De maneira ampla e profunda. Estudamos um pouco de astrologia, o Tio/Padrinho Rick ficou com a tarefa de fazer seu mapa astral. Revimos filmes como “Conversando com Deus”, “Brumas de Avalon”, ela releu “Ilusões” e mais do que isso: conversou consigo mesma no futuro. Com a sua escolha de futuro.



Descobriu realidades bem diversas e fez a escolha do equilíbrio. De fora, enxergamos tudo com mais clareza e as decisões ficam mais acertadas. Comprometeu-se, consigo mesma, a aproveitar esse tempo de parada para se resolver e finalmente, fazer a “lição de casa”. Vigiar suas atitudes e aprimorar conhecimento. Abrir seu coração. Não só com as mágoas e tristezas dessa vida.



Abrir o peito e perdoar.



Nosso histórico espiritual de encarnações recentes deixou marcas profundas que tinham que ser curadas. Perdoar é um remédio para quem perdoa. O perdoado, normalmente, nem toma conhecimento do ocorrido. Enquanto carregamos o peso da mágoa ela rasgará nossa alma, e volta e meia despertará, trazendo toda dor, medo, revolta, angustia e sofrimento.



No começo dessa história falei das minhas afinidades espirituais, mas omiti muitas coisas. Sempre tive uma repulsa pela Igreja Católica Apostólica Romana. Desde muito cedo pesquisei muito sobre a Inquisição, Cruzadas, Templários, e a cada conclusão, minha raiva crescia. E a Thabata sempre me acompanhou nesses estudos. Eles despertaram uma dor antiga em seu coração. Mas, nessa vida ela tinha essa missão como prioridade. Perdoar. Quem a fez sofrer a faria ressuscitar. A redenção do seu espírito teria que acontecer.



Episódios inexplicáveis, com queimaduras que apareciam de repente, visões extra-físicas, grupos que a acompanhavam de longe e a auxiliavam quando era necessário, e outros fenômenos passearam pela vida da pequena bruxinha, como alguns parentes chamavam, carinhosamente, a Thabata.



O tempo foi passando e os exames foram feitos. A aortografia resultou negativa. Suas artérias estavam intactas. A broncoscopia a mesma coisa, pulmão limpo como de um bebê. Ficamos felizes com o resultado, mas uma questão nos angustiava. Esses resultados apontavam para um prognóstico: cirurgia.



Um mundo mágico, colorido e encantador estava a cada dia se tornando mais cinza e sem brilho. O céu pareciam não estar ao alcance das nossas preces. O prognostico não havia mudado. O tumor era cada vez mais real e a cirurgia inevitável. Era o ponto final de toda poesia. Nenhum príncipe ou princípio encantado havia aparecido para tirar a linda princesa das garras do grande mal. Ela teria que invocar a força do seu samurai para sua grande batalha. Aquela para a qual havia treinado todo esse tempo.



Voltamos no Dr. Gibran com os exames nas mãos. Estávamos tensas. A Thata não queria fazer nenhuma cirurgia. Estava em um momento de ascensão no circo. Se operasse teria que adiar planos, rever projetos e prioridades.



Entramos na sala e apresentamos os exames, não só para o Dr. Gibran, mas para toda equipe, que examinou cuidadosamente todo material. A discussão demorou uns quinze minutos. A conclusão foi dolorida:



- Ela tem que operar. O tumor tem uns 12cm, pode ser considerado grande. – disse o simpático doutor, agora mais sério e determinado a convencer a Thabata.



- Mas, quais os riscos? – Perguntei – se fizermos um acompanhamento e a cirurgia não for feita agora?



- É difícil saber. Mas, podemos fazer isso. Nosso conselho é fazer a cirurgia. Gostaria que vocês comparecessem amanhã em uma reunião com a equipe toda na Santa Casa. Vamos submeter os exames para análise e decidir o melhor procedimento.



Concordamos com a reunião, afinal novos caminhos poderiam ser abertos.



Na manhã seguinte estávamos lá. Foi a nossa primeira visita na famosa Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. O prédio impressiona, não só pela sua grandeza, mas também pelo estilo. Aquele lugar nos trouxe muitas recordações. Parece um antigo convento europeu, onde grandes segredos foram guardados e mulheres condenadas à morte escondidas. Um mundo antigo há muito esquecido, mas sempre lembrado por nós.



- Olá, vamos lá para cima? A reunião já vai começar. – Disse um membro da equipe médica me tirando dos sonhos e obrigando-me a enfrentar a realidade.



Sem nem mesmo nos dar tempo de responder, seguiu pelo corredor e tivemos que apressar o passo para acompanhá-lo até o segundo andar onde eles se reuniram. Ficamos, nós e mais umas três pessoas, aguardando na ante sala.



A reunião demorou umas três horas, até que um dos médicos veio conversar conosco. Sem dizer muita coisa ele deixou claro que a única saída seria a cirurgia. Se já estávamos apreensivos, ficamos mais ainda. Estávamos pensando que essa reunião nos ofereceria uma solução e não uma confirmação. Percebendo que fazíamos perguntas que o jovem doutor não conseguia responder o Dr. Gibran se aproximou.



- Olá, como estão?



- Olá Doutor! Sinceramente, pensei que essa reunião pudesse nos explicar mais coisas e propor alternativas para a cirurgia. – Falei, já muito preocupada.



- O problema é que para o caso da Thabata não tem alternativa. O único procedimento é a cirurgia. Temos certeza de que é um tumor com características de ser benigno, mas só teremos certeza depois que a biopsia for feita.



- É possível fazer a biopsia antes da cirurgia? – Perguntei, já com medo da resposta.



- Não queremos correr o risco. Pode acontecer contaminação de outros tecidos durante o procedimento. Como a cirurgia tem que ser feita de qualquer jeito, faremos a biopsia depois. – Respondeu com tranqüilidade.



- Certo. Qual é o próximo passo?



- Vamos aguardar uma vaga. Desculpem, mas não tenho outra coisa a fazer. Quando ela surgir, entraremos em contato.



E essas foram as últimas palavras do Dr. Gibran. Saímos da Santa Casa em parafuso. Tumor. Cirurgia. Biopsia. Todas essas palavras ficavam como fantasmas gritando dentro de nós.



Aguardar por um dia que nem tínhamos uma previsão, para fazer uma cirurgia que não tínhamos certeza da necessidade.



Quando as coisas começaram a mudar? Porque tudo isso estava acontecendo? E se ela fizesse a cirurgia e algo desse errado?



Ela estava bem! Não sentia absolutamente nada. Nos últimos dias estava até treinando no circo novamente. Depois de saber que não tinham nenhuma fissura arterial, o circo passou a ser sua atividade diária. Seria justo tirá-la da sua vida em um momento tão feliz para colocá-la em um hospital? Permitir que transformassem o colorido mundo do circo em uma fria sala de cirurgia?



Misericórdia. Compaixão. Milagre. Cura. Os anjos, onde estavam? Faria qualquer sacrifício para encontrar um caminho sem dor. Não! Estava decidido! Essa história teria que ser contada de outra maneira.

sábado, 6 de março de 2010


TEMPO


Durante o período em que passei no hospital com a minha filha aprendi diversas coisas, uma delas foi a entender o tempo.....


Ele não passa, simplesmente te acompanha
Está sempre ao nosso lado, acontecendo a cada instante
Tentar medir sua velocidade é como tentar contar as estrelas do céu
Quanto mais você conta menos exato será e mais lentamente ele passará
A pressa faz com que ele demore
Já a demora faz com que ele passe sem pressa
Não gosta do que gostamos
Porque quando estamos no que gostamos ele passa depressa
Não foi, não será um dia, nem quando Deus quiser
É agora, sempre foi e sempre será
Pra sempre junto
Dentro e fora
Na alma
No espírito
No trabalho
Na rua
Estar com ele e vibrar no seu ritmo é estar sempre em paz e na paz!
Não correr, caminhar
Não ir,estar
Não esperar, parar
Não reclamar, clamar


O tempo não para de esperar que um dia não tendo mais para onde correr o homem caminhe ...cada vez mais devagar e devagar.....até que um dia, mais calmo e nada ansioso pelo que ainda poderá ser um dia, sem tempo e sem trampo, olhando para o vazio que há na sua frente ele reconheça que o seu destino não é "ser temporário" e sim "Senhor do Tempo sem Horário".


Senhor do tempo sem horário, sem vício sem interrupção.
Sem destino, sem catraca, sem capacete
Não quero ninguém medindo meu destino pelo crédito do meu bilhete ....

Sobre o blog

Sempre tive o hábito de escrever, até então apenas para me entender melhor e às situações que que a vida me apresentava.

Após o acidente com a Thata, minha filha do meio, uma força eclodiu da minha alma e uma inspiração me "forçou" a escrever publicamente.

Eu sou Kathia Rosa, casada com o Cesar, mãe da Dayanne, da Thabata e do Ian, espiritualista, professora de culinária natural e vida saudável, e aprendiz da vida. Atualmente vivo esse momento de desafio espiritual onde o gatilho inicial foi o acidente da Thata. O final dessa história talvez nunca aconteça, por fazer parte de um processo muito maior que envolve muitas vidas... o destino tem caminhos misteriosos para nos conduzir à luz. Compreender esse processo é sublimar o sofrimento de cada passo e aprender a sentir cada momento, como uma gaivota que voa cada vez mais alto apenas pelo prazer de voar...