terça-feira, 20 de outubro de 2009

Capítulo 2

O mal tempo está se formando!















Fui na ambulância segurando a mão da Thata, e me segurando para não cair em desespero. A sensação de impotência era o que mais me afligia, queria fazer alguma coisa para consertar aquilo tudo, mas não estava mais nas minhas mãos. Olhava para ela e não podia nem mesmo abraçá-la. O que me consolava era a calma do paramédico. Olhava-o com desespero, e um grito silencioso de - Me ajude, pelo amor de deus! - estava estampada na minha fisionomia.



– Calma! Ela vai ficar bem. – Ele repetiu essa frase pelo menos 5 vezes, durante o percurso.



Ela estava totalmente imobilizada, logicamente, para sua própria segurança. Sentia muita dor e mal conseguia se comunicar com os paramédicos. Sua respiração continuava muito ofegante e seu olhar de medo me causava uma devastadora onda de choque no peito. Ela estava apavorada e eu podia sentir seu desespero e sabia dos seus questionamentos. Porque eu? O que vai acontecer daqui pra frente? Será que eu vou ficar bem? Vou morrer? Sentia que ela estava com maus pressentimentos, e pior que isso, eu também estava. Podia ver o mal tempo se formando e o cenário de um período de trevas sendo construído a cada segundo.



********************



Trevas...escuridão...dor...sofrimento....compreensão... resgate...sacrifício......consciência . Muita coisa estava para acontecer. As trevas são um poderoso instrumento da luz. Através de experiências nos mundos inferiores é que resgatamos a nossa consciência adormecida e despertamos nosso espírito para viVER a luz e a verdade.



********************



Pela janela da porta traseira da ambulância eu podia ver o Cesar. Sabia da sua angustia de nos acompanhar com o carro, sem acesso ao que estava acontecendo a cada instante. Nós dois temos uma grande ligação, herança de outras vidas em outros tempos... Assim que nos conhecemos, ou melhor, nos reconhecemos, resolvemos ficar juntos, de novo, nessa nova vida. Bastaram alguns meses para que eu estivesse morando no seu apartamento. Logo depois a Thata nasceu, depois de uma gravidez difícil e cheia de fenômenos extra-físicos. Ele cuidou de nós duas, antes, durante e após, o tempo todo, com toda dedicação. Sempre foi assim. Por essas e outras sabia que, como pai e companheiro dedicado, ele estava sofrendo não só pelo acontecido, mas também por estar ali, sozinho no carro acompanhando a ambulância que carregava nossa filha... Podia sentir seu coração apertado. Seus olhos, já vermelhos, numa mistura de choro e ansiedade, eram visíveis de longe. Ele também estava bastante preocupado com essa apresentação. Perguntava constantemente sobre o uso de colchão de proteção, ou outros meios que poderiam ser adaptados para o evento. Sua intuição de pai estava em alerta.



Após, aproximadamente 30 minutos de percurso, finalmente, chegamos ao hospital. A maca foi retirada da ambulância, com todo cuidado, e, como não tinha vaga na sala de emergência ela foi colocada no corredor lateral. Ficamos ali, ela na maca, imobilizada, com dor e medo. Eu, segurando a sua mão, olhava de um lado para o outro, esperando ver um médico que a atendesse. Cada enfermeira que passava dizia que o médico já estava a caminho. De repente, no fim do corredor vi um possível médico se aproximando. Altura mediana, cabelos, barba e bigode castanhos claros. Caminhava tranquilamente pelo corredor na nossa direção. Minha vontade era sair correndo até ele e fazer com que viesse rápido resolver o problema e socorrer a Thabata, era angustiante vê-la sofrendo tanto. Ele foi se aproximando a passos lentos e, para nossa decepção, passou como se não nos visse ali. Aquela cena ficou gravada. Nunca mais esqueceria. Dali a pouco aparece uma enfermeira e diz o óbvio:



- Vamos fazer alguns raios x para verificar se houve alguma fratura.



Antes de ser levada para o raio x, a Thata me pediu para comunicar o Nivaldo do que tinha acontecido. Ele é realmente um amigo especial, ela o considera demais. Conhecemos-nos no restaurante vegetariano que tínhamos na Mooca, bairro tradicional de São Paulo. A empresa dele era nossa vizinha, e sendo adepto da alimentação saudável estabeleceu um convênio conosco. Almoço vai, conversa vem, ficamos amigos e a Thabata reconheceu nele um vinculo antigo, muito antigo. Laços espirituais que fixaram uma grande amizade terrena que resultaria em benefício mútuo. Interessante como a família espiritual, por vezes, tem mais força sobre nós que laços de sangue.



Resolvi, então, ligar para casa e avisar o Ian do que estava acontecendo. Justamente aquela noite ele tinha decidido ficar em casa. Pela primeira vez não estaria numa apresentação da irmã. Os dois, apesar das briguinhas de irmãos, sempre tiveram um vínculo muito forte. Desde pequenos eram muito unidos e era lindo vê-los brincando. A Thata, sempre a mais imaginativa, criava cenários de contos de fadas. E, o Ian, sendo mais novo, enfrentava qualquer papel, apenas para fazer parte das suas fantasias. Às vezes, quando ela resolvia dormir na casa de alguma prima, ele voltava pra casa, absolutamente inconsolável. Sua dúvida era sempre a mesma:



- E agora, com quem eu vou brincar? – lamentava.



Já era por volta de 3 da manhã, mas como ele tinha o hábito de ficar acordado até de madrugada, achei por bem avisá-lo. O telefone tocou várias vezes, deixei recados na secretária e, quando estava quase desistindo, finalmente ele atendeu:



- Ian, filho, sou eu. Olha, não se assusta. Estamos com a sua irmã no hospital. A Thata caiu do trapézio. – disse, tentando manter a calma.



- Como assim, mãe? Não acredito! Como aconteceu? Ela está bem?



Tentei acalmá-lo para poder explicar como tudo tinha acontecido. Ele insistiu várias vezes para que fôssemos buscá-lo, mas naquele momento achei melhor que ele esperasse em casa. Atendendo ao pedido da Thata, pedi para que, assim que o dia amanhecesse ele avisasse para o Nivaldo.



Fui até o raio x para tentar acompanhar as coisas de perto. A cena que encontrei foi engraçada. As enfermeiras se olhavam, assustadas com a roupa da Thata. Ninguém estava entendendo nada!



- Nossa! Onde você estava quando caiu? – perguntou uma das enfermeiras.



Como a Thata estava com dificuldades para falar e conseguir explicar a situação, intercedi:



- Ela é trapezista, e estava trabalhando em um evento quando caiu. Essa roupa é um figurino.



A roupa era incomum, ainda mais no contexto de um hospital. Era um figurino deslumbrante e muito sensual. Um corpete preto e vermelho, todo de renda, trançado na frente com fita de cetim. Um short, bem curto, preto e uma meia fina vermelha completavam o visual. Isso, sem falar na maquiagem, cheia de brilho no corpo todo. Diante dessa cena, em poucas horas, todos no hospital, conheceriam o caso da trapezista. Não só pela sua complexidade, como pelo inusitado da situação.



Depois de completado todo ritual do raio x, os médicos que a estavam atendendo me perguntaram se ela tinha prótese de silicone nos seios.



- Não! – respondi, sem entender muito bem o motivo da pergunta.



-Deve ter dado algum erro na hora de tirar esse raio x. Vamos ter que fazer outro. – Disse uma das médicas.



Essa história iria muito adiante. O tal “defeito” deu trabalho. Concluídas as 5 seções de raios x que tiraram dos mesmos lugares nos informaram que, aparentemente, ela não tinha nenhuma fratura, mas que teria que ficar em observação até que o ortopedista a liberasse. Enquanto isso, uma vaga foi disponibilizada na emergência e ela foi colocada nela. Assim, ficaria mais bem acomodada em uma cama, mas, ainda na prancha, e as enfermeira poderiam dar uma assistência mais direta. Eu teria que esperar lá fora, junto com o Cesar. E, foi o que aconteceu...



Sempre entendi que tudo que está em nossas vidas foi colocado lá por nós mesmos. Saber decifrar o porquê, e como isso pode ser aproveitado de maneira positiva, é o maior trunfo que se pode ter. Só podemos avaliar o quanto essas teorias estão ativas em nossa vida quando nos deparamos com um problema real.



*Não existe um problema
que não ofereça uma dádiva para você.



Você procura os problemas
porque precisa das dádivas por eles oferecidas.



Quando o Cé me viu, levantou-se e veio ao meu encontro, ansioso por notícias:



- Ela está bem, dentro do possível. Tiraram um monte de raios x, e não viram nenhuma fratura. Porém, só o ortopedista pode confirmar essa informação. Ela está na sala de emergência agora, e vai ficar essa noite em observação.



-Graças a Deus! Falou, com os olhos cheios de lágrimas.



Sentados, logo atrás de onde o Cesar estava, e também aguardando por notícias, estava o Allan e a namorada, em uma atitude de solidariedade e compaixão que jamais esqueceríamos. Agradeci muito aos dois, pela paciência e pela companhia que fizeram para meu marido. Comunicamos então aos dois as novidades, e os incentivamos a ir para casa descansar. A noite seria longa e ficar ali não ajudaria.



Sentamos na sala de espera, que na verdade, é um salão com umas 100 cadeiras e um grande vazio... e ficamos quietos, olhando com esperança para a porta de onde viriam possíveis notícias. Passamos a noite ali, esperando, cochilando, pensando e rezando para que a tempestade fosse passageira. Afinal, as notícias eram boas. As possibilidades de fraturas eram muito pequenas. E, se houvessem, não tinha com serem de grande porte, ou os médicos que a atenderam teriam visto.



- Calma! Calma! Calma! Repetia para mim mesma.



Passadas algumas horas fui até a porta e pedi para o segurança se eu podia vê-la rapidamente...só por um instante... Ele relutou um pouco, deu uma olhada lá pra dentro e falou:



- Ela está na sala de emergência, então tem que ser rápido mesmo.



Assim que ele abriu a porta, fui rapidamente em direção a sala. Ela estava no primeiro leito, bem em frente a porta. Já estava com um aspecto um pouco melhor, mas como ainda estava imobilizada na prancha, sentia muitas dores e uma sensação constante de desconforto físico. A enfermeira tinha oferecido um “remedinho” para a dor, mas ela recusou. O medo de injeção era maior que qualquer dor que estivesse sentindo. Quando soube disso fiquei um pouco mais tranqüila. Já a tinha visto em situações de dor onde ela tomou a injeção e nem sentiu a picada. Então, as coisas realmente estavam melhores do que eu esperava.



- Senhora, por favor, não é permitido acompanhantes aqui na sala de emergência. A senhora tem que sair. – disse uma das enfermeiras.



Apesar de tentar ficar bem no cantinho, tentando me disfarçar de objeto da sala, ela me viu e tive que sair. Mas, tudo bem. Apesar do enorme susto eu estava um pouco mais tranqüila. Voltei para o meu posto oficial na sala de espera, ao lado do Cesar. Contei a ele as novidades e pude sentir o seu alivio. O dia amanheceu e resolvemos ir até em casa, ver o Ian e os passarinhos, comer alguma coisa, trocar de roupa e voltar correndo para o hospital. Afinal, se ela não tivesse fraturas era possível que voltasse para casa naquele dia.



Saí dali com o coração apertado, mas queria ir até em casa. Queria conversar pessoalmente com o Ian, sabia que deveria estar preocupado e angustiado.



Quando chegamos, ele já estava acordado. Na verdade não tinha conseguido dormir depois do telefonema. Conversamos um pouco sobre os detalhes da situação enquanto eu preparava um café da manhã para nós três. Sentamos e comemos meio forçados, a comida passava com dificuldade pela garganta. Apesar de estar mais tranqüila, não conseguia pensar estar em outro lugar. Queria voltar para o hospital o quanto antes. Pedi para que o Ian cuidasse dos passarinhos, Gandhi e Ashtar, duas calopsitas que são parte da família. Pegamos um agasalho e voltamos para o hospital.







Apesar da distância entre nossa casa e o hospital ser relativamente pequena, naquele momento pareceu uma viagem muito longa. Apenas nesse dia pude compreender o verdadeiro significado da relatividade do tempo/espaço... “longe” é um estado de ser. Uma ilusão criada pelo medo de estar separado de alguém ou mesmo de um lugar com quem, ou onde gostaria de estar. Mais uma vez o medo é o comandante da ilusão.



A ilusão da distância está
no medo de não conseguir chegar...



E era exatamente isso que eu estava sentindo. Medo de não chegar, ou de chegar tarde demais... mas, tarde para o que? Ela estava consideravelmente bem para a queda que teve.



Apesar do dia ensolarado via nuvens negras como de uma grande tempestade, chegando e invadindo tudo...



Não, eu estava sendo pessimista, ela está bem. Só quero chegar e vê-la bem. Quem sabe até mesmo levá-la para casa ainda hoje.



Quando chegamos, fui direto no atendimento saber se já tinham alguma informação. Só então soubemos que haviam dois horários de visita, das 10hs às 10hs30 e das 15hs às 15hs30. Os médicos só passavam a tarde e só nesse horário conversavam com a família. Olhei rapidamente para o relógio e ainda estava em tempo da visita da manhã. Ela já tinha sido transferida para a observação. O quarto tinha seis leitos, e a Thata estava no 3º do lado da porta. Entrei ansiosa para vê-la! Ela ainda estava na prancha e com o colar no pescoço. Teoricamente imobilizada, até que o ortopedista autorizasse a retirada. Sua aparência era bem melhor, a respiração já estava normalizada e ela já conseguia conversar. Aparentemente, o que mais a incomodava era aquele “colar” no pescoço, e pelo tempo que estava com ele, uma alergia já se mostrava presente, resultando em uma coceira que a fazia puxar o colar com uma mão e coçar o pescoço com a outra.



- Ai mãe, isso está coçando! Disse enquanto enfiava a mão por dentro do colar.



- Thata, não! Você não pode puxar esse negócio assim. – Falei, enquanto tentava evitar que ela continuasse.



Minhas palavras não a convenceram. Ela estava quase tirando o colar. Não sou médica, mas acho que do jeito como ela estava fazendo, estar com o colar e não estar resultariam no mesmo.



No fundo estava muito feliz em vê-la já muito melhor. Estávamos rindo da situação. Da coceira. De tudo aquilo. Aquela meia hora passou em 5 minutos e tive que sair. Só a veria novamente a tarde.



Estávamos muito mais calmos e felizes com o rumo que a situação estava tomando. Não que estivesse totalmente tranqüila, mas, cada vez que a via conversando e rindo já ficava com o coração muito mais sossegado. A visita da tarde seria bem mais completa. Poderia conversar com os médicos e entender melhor o que estava acontecendo e saber de todos os detalhes da situação. Por que ela ainda estava na prancha? Se não tinha nenhuma fratura, por que ainda não teve alta? Enfim teria chance de esclarecer tudo....



*...as únicas coisas que importam
são as feitas de verdade e alegria,
não as de lata e vidro.





Assim que entrei na observação vi que ela permanecia na prancha. Quanto sofrimento! Já fazia treze horas! Era muito tempo para estar naquela situação. Perguntei para as enfermeiras e não tive muitas respostas, mas como conversaria com os médicos na sequência, não insisti.



- Calma, Thata! Até a noite eles vão tirar você daí. – garanti.



Ficamos ali conversando. Eu tentando tirar a atenção dela do incomodo da situação e ela tentando se livrar o quanto antes daqueles apetrechos indesejados.



- Mãe, quero ir embora daqui. Quero ir pra casa.



- Eu sei, filha. Tenha calma, você está bem. Provavelmente amanhã já estará em casa.- falei com esperança de que minha previsão se concretizasse.



A visita terminou. Dei um beijo nela e avisei que estaria com os médicos dali a instantes. Tudo ficaria bem e estaríamos em casa brevemente.



Fui para o corredor onde as famílias eram atendidas pelos médicos. Sentei e fiquei aguardando. Os familiares eram chamados um a um. Explicavam calmamente o caso e suas complexidades, com toda calma. Esclarecendo dúvidas e respondendo a cada questão.



Era uma equipe formada por médicos jovens, mas muito competentes. Tanto na sua especialidade, quanto na questão humanitária. Tratavam a todos com muito carinho e conversavam sem pressa. Repetindo a mesma explicação, uma, duas, três vezes... Vi cada uma daquelas pessoas ser chamada e fiquei apenas aguardando. O tempo já estava diferente, para que teria pressa? Já estava onde queria chegar!



Estava passeando pelos meus pensamento quando ouvi:



- Familiares da Thabata. A Senhora é a mãe da Thabata?



- Sim, sou a mãe dela. – Respondi.



- Olá, somos a equipe que está cuidando da sua filha. Ela está bem. Não tem nenhuma fratura e aparentemente nenhuma lesão muscular. – Explicou a médica.



- Nossa, que bom. Graças a Deus! – Falei, com um suspiro aliviado. – Estou preocupada com o fato de ela ainda estar na prancha. – Comentei, esperando uma resposta de quando ela seria tirada daquele sacrifício.



- Fique tranqüila. Ela já não está mais na prancha. Assim que terminou o horário de visitas nós a tiramos.



- Quantas notícias boas! – Estava muito feliz agora, sabia o quanto ela estava ansiosa por isso.



- Preciso fazer algumas perguntas sobre a Thabata, tudo bem?



- Claro, estou a disposição.



Na verdade eu estava à disposição para qualquer coisa que ela quisesse me pedir. A Thata estava bem!!!! Estava esperando por essa notícia a quase 15hs, sem dormir, sem comer e com o coração na garganta. Agora que sabia que ela estava bem, tudo tinha clareado. Enfim, não havia tempestade. Não era pressentimento ou intuição, era apenas o medo querendo me assustar...



- Pode perguntar! – Disse, com um sorriso.



Foram inúmeras perguntas. Queda de cabelo, se ficava resfriada com freqüência, se tinha febre sem motivo aparente, se teve anemia recentemente, se sentia algum tipo de dor...enfim todas nesse caminho. Para todas, a resposta foi a mesma: não. O meu sentimento de alivio e felicidade, pela notícia que acabava de receber, não me deixavam perceber que havia um motivo para todos aqueles questionamentos a respeito da saúde da Thata. Motivo que ainda não tinha sido revelado. E que justificaria muita coisa.



Depois de tudo aquilo, pensando ser um tipo de pesquisa sobre a saúde dos pacientes antes de serem admitidos no hospital, relatei:



- A Thabata, como eu já disse, é artista circense, trapezista, para ser mais direta. Para tanto, tem um treino diário muito puxado. Às vezes ela sente muito cansaço. Mas, considerando seu trabalho físico, acho justificável. No geral, ela tem uma boa saúde.



- Certo. – Respondeu a médica com um visível ponto de interrogação estampado na sua fisionomia.



Um silêncio. Tenebroso e sombrio tomou conta do ambiente...



Quando percebi a equipe estava se olhando, comunicando-se em silêncio. Quando a médica voltou o olhar para mim novamente, meu coração estremeceu. Sabia que ela tinha algo a me dizer. Enquanto o silêncio se prolongava, o vazio e a dor tomavam conta da minha mente...



- Tem uma coisa que a senhora precisa saber! – falou a médica, quebrando o silêncio.



Fiquei muda. Queria ouvir. Não tinha forças para dizer absolutamente nada!



- Hoje de manhã fizemos uma tomografia na Thabata. Apareceu uma mancha no raio x e precisávamos investigar...



Sim. Meus pensamentos começaram a fazer conexões rapidamente. Isso funciona como um instinto de sobrevivência. Quando é colocado em alerta trabalha eficientemente, rastreando todas as informações disponíveis... A mancha! Por isso me perguntaram se ela tinha prótese de silicone...Não era um defeito na máquina? Não, não era.



Fui interrompida nos meus pensamentos. Estava sem voz, tinha um bloqueio na garganta, apenas esperando a médica completar seu raciocínio.



Como as nuvens de uma tormenta que escurece o céu, a tempestade se aproximou. Ela sempre esteve ali, mascarada, disfarçada, apenas esperando para ser notada.



Finalmente ela decidiu falar:



- Encontramos uma massa, no mediastino, entre o coração e o pulmão. – Completou a médica.



O chão estremeceu. O que ela estava dizendo? Massa? Coração e pulmão? O que ela queria dizer com isso? Acabou de falar que ela estava bem!?!



Depois de deixar o sangue voltar a correr. Respirei fundo e perguntei:



- Uma massa? Como assim?



Não queria ouvir a resposta, queria voltar ao momento anterior. Onde ela estava bem e iria para casa no dia seguinte.



- Parece ser um tumor. Ainda não temos certeza de nada. Pode não ser nada. Mas pode ser muita coisa.



- Não. Não pode ser. Ela nunca sentiu nada. Como pode ter um tumor entre o coração e o pulmão? Ela não tem sintoma nenhum. Como pode ser?



- É isso que estamos investigando também. – disse ela.



- Meu Deus! E agora? O que vai ser feito? – Perguntei, já sem sentir o chão embaixo dos meus pés.



- Peço que a senhora volte amanhã. Esteja aqui nesse mesmo horário e conversaremos melhor.



- Respirei fundo mais uma vez. Retomei as forças, as que foram possíveis e pedi:



- Por favor, só peço para não contarem para a Thabata. Pelo menos por enquanto. Vou conversar com meu marido e amanhã conversaremos melhor. Posso vê-la novamente? Só por um instante?



- Claro, pode sim. Só procure não demorar. – Pediu com gentileza.



Queria vê-la. Precisava vê-la. Mas, naquele momento teria que controlar a dor, o medo e o desespero. Quando cheguei no quarto ela estava feliz, com um sorriso no rosto.



- Mãe, finalmente eles me tiraram daquela coisa! Nossa, que alivio. Vou conseguir dormir.



- Nossa Thata, que bom! Que bom ver você fora da prancha.



Não tinha palavras. Meu coração estava em pedaços, sangrando... Queria falar coisas boas, dizer algo que a fizesse ficar tranqüila, para que tivesse uma noite de descanso e recuperação. Mas como? Como podia “aparentar” algo tão irreal como tranqüilidade?



*Uma nuvem não sabe por que se move em tal
direção e em tal velocidade,
Sente um impulso...é para
este lugar que devo ir agora.
Mas o céu sabe os motivos e desenhos
por trás de todas as nuvens,
e você também saberá, quando
se erguer o suficiente para ver além dos
horizontes.



Como eu gostaria, nesse momento, de entender o que havia por trás de tudo aquilo. Mas, ainda não era o momento. Um emaranhando de questões estavam se entrelaçando por trás do véu. Veríamos... mas, não agora. Só quando estivéssemos prontos.



Saí da observação, onde a Thata estava, tropeçando nos meus próprios passos. Todo autocontrole que tive na presença dela, desapareceu. Lágrimas corriam no meu rosto e tudo que eu desejava era chegar rápido no fim do corredor, encontrar o Cesar e dividir com ele aquele peso.



...................................



O Cristo está no chão!!!! Agora tudo fazia sentido. Foi exatamente no truque do cristo que ela caiu. Era um aviso? Podia ter impedido? Mas, se a queda não tivesse acontecido o tumor ficaria encoberto, escondido, agindo sorrateiramente....



....................................



Ele estava na saída, me aguardando. Quando fui me aproximando notou que algo estava muito errado. Tive que me acalmar para conseguir contar o que acabava de saber. Ele entrou em desespero. Também não entendia, e a única coisa que nos confortava era imaginar que tudo podia ser um grande e terrível engano. Depois de muita conversa, sentamos e tentamos achar um caminho... O que faríamos agora?



Como que numa tentativa desesperada de aliviar a dor que queimava nossa alma naquele momento, fomos procurar os únicos da família com quem havíamos tido contato depois da queda: o irmão do Cesar e sua esposa. Não que a relação deles fosse tão próxima assim, mas, por algum motivo foram as primeiras pessoas que pensamos. Telefonamos e avisamos que estávamos a caminho e que precisávamos muito conversar.



Eles foram os únicos a irem ao hospital no dia queda. Talvez por isso estivessem tão claros na nossa mente. Na verdade essa é uma repetição da história. Sempre, em momentos em que a saúde das crianças esteve em risco, eles estavam por perto. Mesmo que um véu, invisível para os olhos físicos, mas perceptível na alma, separasse os irmãos. Unidos pelo sangue, separados pela ilusão desse mundo. Nos momentos de dor, o véu desaparecia.



Quando chegamos, estavam ansiosos. O telefonema criou uma expectativa angustiante. Choramos. Explicamos. Choramos novamente. Saímos de lá mais calmos, porém eu sabia que dali em diante o caminho seria trilhado passo a passo. O papel mais difícil era, logicamente, da Thata. Nós, eu, o Cesar, o Ian, A Day e todos a sua volta teriam que assumir seus papéis de participantes de um processo importante para ela, e onde a dedicação, a calma e o amor seriam pontos determinantes para fortalecer sua alma.



No dia seguinte, acordamos e fomos direto para o hospital. Visita da manhã. Logo na chegada soube que o pedido que fiz aos médicos não foi atendido. Um dos membros da equipe, Dr. Getúlio, descordava da minha visão de mãe, e como a Thata já tinha 18 anos ele contou o que haviam descoberto. A ficha dela não caiu. Percebi isso assim que ela comentou comigo sobre o assunto.



- Mãe, os médicos já conversaram com você?



- Sobre o que? – Perguntei, já desconfiando que ela sabia.



- Eles vieram conversar comigo. Disseram que acharam uma coisa, não entendi muito bem.



- Sim, eles falaram comigo, parece que ainda estão investigando. Mas, não se preocupe com isso. O importante é que você está bem e vai sair logo daqui.



Na hora fiquei muito brava com os médicos, depois entendi que era o mais certo a ser feito. Estava querendo protegê-la de si mesma, e isso era impossível.



Na visita da tarde, quis fazer uma surpresa. Como na observação o paciente não pode ficar com nenhum objeto pessoal, preparei uma mala com “coisinhas” que sabia que a Thata ia adorar. Escova de cabelo, espelho e a parte do kit que a faria mais feliz: caderno de desenho, lápis de desenho e de cor.



Desde a época da queimadura o desenho havia se tornado um hábito. Como tinha que ficar em repouso, ficava desenhando e assistindo desenhos japoneses. Durante esse tempo algo estava sendo gerado. Uma energia no coração da delicada menina. Uma força de superação que a faria renascer das cinzas. Kenjutsu, o samurai havia despertado. Logo que o médico a liberou para fazer atividade física, ela foi atrás e depois de muito insistir começou a prática da arte marcial dos samurais. Foco, concentração, desafio, força, determinação. Treinamento intensivo. Só muito tempo depois saberíamos para quê!



Naquele dia, a Eliete foi comigo falar com os médicos. Ouvimos a mesma história. Nada havia mudado. Minhas esperanças de um erro ou um engano, ia a cada dia esmorecendo. Ela, assim como eu, questionou os médicos. Como uma menina saudável, que praticava atividade física intensa, e não sentia absolutamente nada, podia ter um tumor enorme, entre o pulmão e o coração, local que eles chamavam de mediastino.



A Thabata ficou internada durante três longos dias.



Para ela aqueles dias foram difíceis, mas, como tudo no nosso universo deve estar em equilíbrio, teve ganhos. Ganhou amigos, como Dr. Getúlio, que se interessava muito pelo circo e engatava várias conversas durante o período de internação. Ganhou uma nova visão de valores verdadeiros, percebeu o quanto estar longe da família era dolorido...a falta de casa, dos amigos e de estar no domínio do próprio corpo. A consciência de que é necessário cuidar desse corpo que recebemos, e que não devemos abusar dele. É preciso atenção. Nem sempre é possível que ele cumpra as nossas ordens. Ele não vem com peças de reposição. Se danificá-lo, assuma as conseqüências.



Para nós, ficar em casa era extremamente dolorido. Tivemos que contar para o Ian o que estava acontecendo. Foi difícil, mas seria injusto com ele fazer qualquer coisa diferente disso. Sempre tinha um de nós com o olhar perdido pela casa, tentando ver a realidade de alguns dias antes... quando tudo estava bem. Precisamos da dor para enxergar a felicidade. Os problemas que antes disso tudo acontecer eram imensos, perderam a força.



A noite era impossível dormir. O mundo no qual vivíamos havia sido destruído. Nada mais fazia sentido. Cada vez que pensava na Thata, enxergava a boneca na qual ela se transformava para se apresentar. Rindo, brincando, voando no trapézio e no tecido. A princesa trapezista, que tem seu mundo encantado roubado, tirado dela , literalmente da noite para o dia. É obrigada, então, a resgatar a força do seu samurai para reencontrar seu caminho sagrado e poder acessar seu verdadeiro destino. Nem encantado, nem real, apenas a sua vida, sua história, sua verdade.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Capítulo 1

O Cristo está no Chão!


















O cristo está no chão! Pensei, quando olhei para a corrente que naquela noite eu transformei em tornozeleira. Hábito já antigo, transformar uma peça em outra. Peça única comprada em uma lojinha de bijuterias, era um crucifixo, com Jesus tocando guitarra! Heresia imperdoável para muitos. Na minha interpretação uma grande homenagem que reflete muito mais a verdadeira natureza desse grande mestre. Inspirado, Revolucionário, Artista, no mais nobre sentido da palavra. Não, eu não sou atéia. Só um pouco relutante em aceitar conceitos forçados por instituições falidas. Estudei em Colégio de freiras, praticamente a vida inteira. Minha mãe, antes de se casar com meu pai era evangélica, e depois se tornou católica.


Hoje, após a separação, voltou a ser evangélica. Como já devem ter percebido, eu nunca aceitei muito bem os ensinamentos católicos, sempre vi muita incoerência. Sendo irrelevante o fato de eu ser muito crítica. Bem, para fechar o assunto, acredito em Deus como uma força de natureza mística. Acredito no destino, como uma energia que arrebata as pessoas pela carga energética da nossa freqüência vibratória. Podemos mudá-lo? Sim. Queremos arquitetar e planejar nosso destino? Siiiimmmm! Sabemos como? Às vezes. Temos a disciplina mental e emocional necessária para isso? Quase sempre, não. Sou espiritualista, acredito nas energias superiores que orquestram o universo do qual somos parte. Somos parte, e não mestres supremos. Acredito que fazemos parte de um processo de interação e aprendizado. Troca de experiências e aprendizado do real sentido da missão final de todos nós nesse mundo: VIVER!!!!

Bem, voltando ao assunto... No momento, em que olhei a corrente já colocada no meu tornozelo senti algo estranho... Por que uma coisa que eu fazia tão cotidianamente estava chamando tanto a minha atenção? Certo que era a primeira vez que fazia isso com aquela peça específica, mas isso não explicava muita coisa.



Aquela tarde foi corrida, a Thata não tinha conseguido tempo para ir conhecer o local do evento antes do dia, e isso estava deixando-a desanimada. Mas, chegando lá para o ensaio com o Toni, luzes, música e tudo mais, ela já se animou.... Deixei-os ensaiando e fui buscar o figurino da apresentação de tecido. Na volta, não resisti e passei para assistir um pouquinho do ensaio.



A Thabata já tinha passado o número do tecido e, estava com Toni começando a passar o Double trapézio. Estava lindo, mas o truque do retorno do cristo não estava saindo bem... Eles tentaram algumas vezes e não saia... Não gosto de interferir, mas nesse caso, não resisti:



- Thata, tira o cristo do número, coloca outro truque. - Falei, sem pensar muito!!!



- Vamos ver, mãe. Talvez. Vamos dar um jeito. Sempre fizemos. - Respondeu.



Não dava mesmo pra entender... O número não era novo, já haviam apresentado várias vezes, então porque não estava dando certo?



Voltei pra casa preocupada com o que tinha visto. Mas, contando com toda a vivência deles enquanto dupla, e com a experiência do Toni como *porto, 8 anos de carreira e nenhum acidente. Fui, racionalmente, acalmando o meu coração.





Thata voltou pra casa, descansou, gravamos as músicas, arrumamos figurinos, maquiagem e apetrechos... Tomamos um lanche e seguimos para o salão de festas.



Quando chegamos, uma cena típica de circo. No camarim coletivo, anões, palhaços, perna de pau, acrobatas... Tudo no clima da festa! A programação estava já na seqüência, A Thata faria o número do tecido primeiro, e por volta da meia-noite o trapézio com o Toni. Em um determinado ponto da festa a seqüência atrasou e o tecido já entrou atrasado. Número vai, número vem, sai um, entra outro...





O número do trapézio seria o auge da festa, e em função dos atrasos eles já tinham aquecido e esfriado umas duas ou três vezes. Estavam ansiosos e cansados. Apenas esperando a hora. Conversei com a responsável pela produção e finalmente eles entraram. Era quase 01h da manhã. A música do Toni começou a tocar. Parada total no salão. A melodia penetrante faz todos os olhares buscarem um algo que combine com aquele chamado. Afinal, o que está acontecendo? Ele sobe no trapézio e inicia a sua seqüência individual, 3 a 4 minutos só dele... Quando as pessoas já estão absolutamente seduzidas, uma nova música inicia, ainda mais mística e atraente: é a entrada da Thabata. O delírio é geral. As pessoas gritam sem saber porque! Faz alguns truques e sobe efetivamente no trapézio. Tudo perfeito! Eles não poderiam estar mais deslumbrantes. Pareciam um, entre si e com o aparelho. Eu estava na cabine de controle para garantir que luz e som estariam no lugar certo e na hora certa. O César, pai protetor e guarda-costas em dia de espetáculo, estava do lado do trapézio, como que num sinal de proteção.





Proteção! Todos naquela noite pensaram muito nisso. Porque, ninguém sabia responder. Até mesmo o Allan, membro do circo e amigo da dupla, estava com a pulga atrás da orelha. Pensou até mesmo em colocar um colchão embaixo deles. Mas, tecnicamente não era possível. E, além disso, o trapézio estava baixo. Tudo bem! O que poderia dar errado?



Ela desceu brilhantemente para o cristo. Nessa pose ela deita sobre o corpo do porto e escorrega, ficando segura pelas suas axilas encaixadas nos pés dele. É literalmente uma cruz. Por isso o nome do truque. O retorno, dessa pose é que não estava dando certo no ensaio. Mas, deu na apresentação.



Nossa, pensei, nunca os vi fazerem a volta do cristo tão rápido e com tanta força.



Não deu tempo nem de concluir o pensamento, quando num momento, algo aconteceu. Minha mente custou a concluir o que era evidente. As pessoas estavam gritando. Todo cenário havia se transformado. Uma tragédia havia acontecido.



- Ela caiu!!! Não, não pode ser. – Era tudo que eu conseguia pensar naquela hora.



Do outro lado, o César, que estava praticamente embaixo do trapézio, quando tudo aconteceu, foi socorrê-la. Ela estava estática. Não conseguia falar, e sua respiração era ofegante.



- Fala comigo filha! Fala!- O Cesar estava em desespero, com a Thata nos braços.



Não havia resposta. Seus olhos estavam abertos, mas as palavras não saiam.



Quando vi o trapézio vazio, meu coração congelou. Não, não pode ser! Isso não pode estar acontecendo!!! Fiquei paralisada por segundos que pareceram uma eternidade. Quando ela caiu, como que num impulso de medo virei de costas para o salão, e permaneci assim, por milésimos de segundos. De costas para o trapézio, para a cena que parecia saída dos meus pesadelos. Era possível que aquilo fosse uma projeção dos meus medos subconscientes. Tive a esperança de olhar para o trapézio novamente e vê-los sorrindo e quase finalizando o número. Sonho, delírio, fuga... Quando retomei as forças e olhei novamente para o centro do salão, nada havia mudado. Ela estava no chão. A música continuava tocando. As luzes apagadas e os canhões de luzes ainda procuravam o que iluminar. Não, eles não eram mais necessários.



Desci o mais rápido possível da cabine de controle e corri na direção dela. Meu coração estava em desespero, não sabia o que ia encontrar. Internamente algo me dizia que a queda era só o começo.



Nesse caminho, lembrei de quando, aos 11 anos, ela se queimou... Nós trabalhávamos em casa, já para estar mais atentos e mais perto dos três. Day, Thata e Ian. A Day, sendo a mais velha, cinco anos mais que a Thata, não gostava de ficar muito com os dois irmãos menores, afinal era outra cabeça, outras brincadeiras... Já os dois menores estavam sempre juntos e dividiam os mesmos amigos. Nesse dia, apenas eles, Thata e Ian, estavam em casa. Era uma tarde de julho, férias da escola, mas dia de trabalho para nós. Tínhamos uma reunião num cliente e não tinha como adiar. Morávamos em um prédio, e apesar de não ter uma boa área de lazer as amizades compensavam. A reunião era rápida e eles já não eram tão pequenos assim, o Ian, 9 para 10 e, a Thata, 11 para 12 anos. Na volta da reunião, passamos no mercado para comprar o jantar. Foi quando o celular tocou. Era a vizinha, pedindo que voltássemos o mais rápido possível para casa. O motivo: a Thata tinha se queimado. Largamos as compras no meio do mercado e saímos correndo. Estava preocupada, mas esperava encontrar uma mãozinha queimada, ou algo assim. O que mais podia ter acontecido? O tempo que eles ficaram sozinhos foi curto e nem tinha porque mexer no fogo. Com certeza era algo leve. Chegamos no prédio e fomos direto para o apartamento da vizinha. Quando entrei, a primeira coisa que vi foi o Ian, assustado, como eu nunca tinha visto. Quando olhei para a Thata, ela estava com uma das pernas da calça cortada, quase até a virilha. Sua perna esquerda tinha diversas bolhas, e logicamente, ela chorava muito. O Cesar a pegou no colo para levá-la para o hospital. Isso já foi uma dificuldade, encontrar um lugar da perna que não tivesse bolhas. Para resumir a história: queimaduras de 2º grau, quase 3º, segundo os médicos, 1 mês em repouso, deitada, fazendo curativo no hospital a cada 2 dias. Depois de cicatrizado, um ano de uso de meia de compressão. Isso sem falar no prejuízo emocional, psicológico. Todo esse sofrimento fez renascer um samurai adormecido dentro de uma delicada princesa...



Toda essa história passou como um flash enquanto eu me aproximava ...



A Thata estava caída no chão, sem conseguir respirar direito, com o olhar mais assustado que eu já tinha visto. Me ajoelhei ,ao lado dela e pedi desesperada para chamarem o resgate. Minhas mãos tremiam, eu não conseguiria segurar o celular para fazer isso eu mesma. As pessoas em volta pareciam não acreditar no ponto que as coisas tinham chegado. De longe, ouvi o pessoal da produção pedindo para que alguém “livrasse a pista de dança” porque aquilo estava atrapalhando o andamento da festa. Ela foi falando enquanto se aproximava, foi só então que se deu conta da gravidade da situação, e imediatamente mudou o discurso. Um dos palhaços da festa era muito amigo da Thata, foi um dos primeiros a ter coragem de me pedir o impossível: calma. Tentando me fazer acreditar que era só o susto. Mas, minha intuição me dizia que eu precisava me preparar.



- Thata, calma. Vai ficar tudo bem! – tentei acalmá-la – Onde está doendo?



- Mãe, me tira daqui – foi tudo que ela conseguiu sussurrar.



Do outro lado, também ajoelhado, estava o Toni, chorando, paralisado, segurando a mão dela. Visivelmente ele não sabia o que fazer ou o que falar...era evidente o seu sentimento de culpa. Mas, não haviam culpados. Culpa do que? Ele também caiu. Também sofreu. Nada acontece por acaso. Aquilo não era simplesmente um acidente para atrapalhar um aniversário de quinze anos. O resultado daquela situação estava nas mãos do destino . Um ganho para cada perda. A Thata tinha um resgate a ser feito, talvez o mais importante dessa vida!



- Seu número estava lindo! Calma, você vai ficar bem! – Era Pietra, a aniversariante.



- Desculpa por estragar sua festa! Que vergonha! Desculpa! – Era o que a Thata pensava enquanto olhava pra ela. O que não podia ser dito em palavras era expresso em seu olhar de tristeza. Lágrimas de dor, vergonha e medo, corriam pelo seu rosto.



Enquanto o resgate não chegava, fiquei tentando falar com a minha filha para saber o que ela estava sentindo, se havia algum sintoma de fratura, ou algo assim. Ela sentia muita dor na altura do diafragma, no peito e nas costa. A respiração era difícil e estava com medo, muito medo.



- Essa queda foi provocada, eles querem te abrir. – Foi o que as vozes disseram para a Thata, nesse momento.



Além da dor, do medo, da falta de ar, havia as vozes, como que encomendando episódios de dor e sofrimento. Elas, as vozes, eram antigas conhecidas. Por várias vezes, na sua adolescência, já haviam se manifestado. Na maioria das vezes assustando e trazendo lembranças ruins. Pessoalmente, sempre vi essa situação como erro de interpretação. Na verdade, elas nunca haviam prejudicado ninguém diretamente, nem previsto algo que realmente tivesse acontecido posteriormente. Mas, dessa vez seria diferente...



Medo! Todos nós estávamos com muito medo. O Cesar no celular, chamando, mais uma vez o resgate, e sendo mais uma vez, informado que alguém já tinha feito isso. A família da aniversariante foi se aproximando. Olhares preocupados, corações solidários. Senti uma mão sobre a minha:



- Calma, vai dar tudo certo. – Era Fernanda, mãe da Pietra. Eu não tinha forças para responder. Meu peito estava pegando fogo, em pânico.



- O resgate chegou. – Finalmente, pensei. Parecia que tinha passado uma eternidade.



Fizeram várias perguntas pra mim, pra ela e com toda a paciência e cuidado ela foi sendo imobilizada, para se ter a certeza de manter as melhores condições de reparar qualquer fratura, ou algo assim. Fomos seguindo os paramédicos sem desviar a atenção da Thata, nem por uma fração de segundos, até a porta do salão. Sentia meu corpo todo tremer, o chão parecia ter desaparecido. Quase na saída e no meio dos meus pensamentos a respeito do que aconteceria dali em diante, um som tomou conta do ambiente. Eram aplausos! Muitos aplausos!!!! Olhei para trás e vi a maior demonstração de compaixão dos presentes. Todos, em pé, aplaudindo a artista Thata, em sua primeira e única queda, que teria como consequência a sua maior e verdadeira ascensão como consciência.

Sobre o blog

Sempre tive o hábito de escrever, até então apenas para me entender melhor e às situações que que a vida me apresentava.

Após o acidente com a Thata, minha filha do meio, uma força eclodiu da minha alma e uma inspiração me "forçou" a escrever publicamente.

Eu sou Kathia Rosa, casada com o Cesar, mãe da Dayanne, da Thabata e do Ian, espiritualista, professora de culinária natural e vida saudável, e aprendiz da vida. Atualmente vivo esse momento de desafio espiritual onde o gatilho inicial foi o acidente da Thata. O final dessa história talvez nunca aconteça, por fazer parte de um processo muito maior que envolve muitas vidas... o destino tem caminhos misteriosos para nos conduzir à luz. Compreender esse processo é sublimar o sofrimento de cada passo e aprender a sentir cada momento, como uma gaivota que voa cada vez mais alto apenas pelo prazer de voar...