O Cristo está no Chão!
O cristo está no chão! Pensei, quando olhei para a corrente que naquela noite eu transformei em tornozeleira. Hábito já antigo, transformar uma peça em outra. Peça única comprada em uma lojinha de bijuterias, era um crucifixo, com Jesus tocando guitarra! Heresia imperdoável para muitos. Na minha interpretação uma grande homenagem que reflete muito mais a verdadeira natureza desse grande mestre. Inspirado, Revolucionário, Artista, no mais nobre sentido da palavra. Não, eu não sou atéia. Só um pouco relutante em aceitar conceitos forçados por instituições falidas. Estudei em Colégio de freiras, praticamente a vida inteira. Minha mãe, antes de se casar com meu pai era evangélica, e depois se tornou católica.
Hoje, após a separação, voltou a ser evangélica. Como já devem ter percebido, eu nunca aceitei muito bem os ensinamentos católicos, sempre vi muita incoerência. Sendo irrelevante o fato de eu ser muito crítica. Bem, para fechar o assunto, acredito em Deus como uma força de natureza mística. Acredito no destino, como uma energia que arrebata as pessoas pela carga energética da nossa freqüência vibratória. Podemos mudá-lo? Sim. Queremos arquitetar e planejar nosso destino? Siiiimmmm! Sabemos como? Às vezes. Temos a disciplina mental e emocional necessária para isso? Quase sempre, não. Sou espiritualista, acredito nas energias superiores que orquestram o universo do qual somos parte. Somos parte, e não mestres supremos. Acredito que fazemos parte de um processo de interação e aprendizado. Troca de experiências e aprendizado do real sentido da missão final de todos nós nesse mundo: VIVER!!!!
Bem, voltando ao assunto... No momento, em que olhei a corrente já colocada no meu tornozelo senti algo estranho... Por que uma coisa que eu fazia tão cotidianamente estava chamando tanto a minha atenção? Certo que era a primeira vez que fazia isso com aquela peça específica, mas isso não explicava muita coisa.
Aquela tarde foi corrida, a Thata não tinha conseguido tempo para ir conhecer o local do evento antes do dia, e isso estava deixando-a desanimada. Mas, chegando lá para o ensaio com o Toni, luzes, música e tudo mais, ela já se animou.... Deixei-os ensaiando e fui buscar o figurino da apresentação de tecido. Na volta, não resisti e passei para assistir um pouquinho do ensaio.
A Thabata já tinha passado o número do tecido e, estava com Toni começando a passar o Double trapézio. Estava lindo, mas o truque do retorno do cristo não estava saindo bem... Eles tentaram algumas vezes e não saia... Não gosto de interferir, mas nesse caso, não resisti:
- Thata, tira o cristo do número, coloca outro truque. - Falei, sem pensar muito!!!
- Vamos ver, mãe. Talvez. Vamos dar um jeito. Sempre fizemos. - Respondeu.
Não dava mesmo pra entender... O número não era novo, já haviam apresentado várias vezes, então porque não estava dando certo?
Voltei pra casa preocupada com o que tinha visto. Mas, contando com toda a vivência deles enquanto dupla, e com a experiência do Toni como *porto, 8 anos de carreira e nenhum acidente. Fui, racionalmente, acalmando o meu coração.
Thata voltou pra casa, descansou, gravamos as músicas, arrumamos figurinos, maquiagem e apetrechos... Tomamos um lanche e seguimos para o salão de festas.
Quando chegamos, uma cena típica de circo. No camarim coletivo, anões, palhaços, perna de pau, acrobatas... Tudo no clima da festa! A programação estava já na seqüência, A Thata faria o número do tecido primeiro, e por volta da meia-noite o trapézio com o Toni. Em um determinado ponto da festa a seqüência atrasou e o tecido já entrou atrasado. Número vai, número vem, sai um, entra outro...
O número do trapézio seria o auge da festa, e em função dos atrasos eles já tinham aquecido e esfriado umas duas ou três vezes. Estavam ansiosos e cansados. Apenas esperando a hora. Conversei com a responsável pela produção e finalmente eles entraram. Era quase 01h da manhã. A música do Toni começou a tocar. Parada total no salão. A melodia penetrante faz todos os olhares buscarem um algo que combine com aquele chamado. Afinal, o que está acontecendo? Ele sobe no trapézio e inicia a sua seqüência individual, 3 a 4 minutos só dele... Quando as pessoas já estão absolutamente seduzidas, uma nova música inicia, ainda mais mística e atraente: é a entrada da Thabata. O delírio é geral. As pessoas gritam sem saber porque! Faz alguns truques e sobe efetivamente no trapézio. Tudo perfeito! Eles não poderiam estar mais deslumbrantes. Pareciam um, entre si e com o aparelho. Eu estava na cabine de controle para garantir que luz e som estariam no lugar certo e na hora certa. O César, pai protetor e guarda-costas em dia de espetáculo, estava do lado do trapézio, como que num sinal de proteção.
Proteção! Todos naquela noite pensaram muito nisso. Porque, ninguém sabia responder. Até mesmo o Allan, membro do circo e amigo da dupla, estava com a pulga atrás da orelha. Pensou até mesmo em colocar um colchão embaixo deles. Mas, tecnicamente não era possível. E, além disso, o trapézio estava baixo. Tudo bem! O que poderia dar errado?
Ela desceu brilhantemente para o cristo. Nessa pose ela deita sobre o corpo do porto e escorrega, ficando segura pelas suas axilas encaixadas nos pés dele. É literalmente uma cruz. Por isso o nome do truque. O retorno, dessa pose é que não estava dando certo no ensaio. Mas, deu na apresentação.
Nossa, pensei, nunca os vi fazerem a volta do cristo tão rápido e com tanta força.
Não deu tempo nem de concluir o pensamento, quando num momento, algo aconteceu. Minha mente custou a concluir o que era evidente. As pessoas estavam gritando. Todo cenário havia se transformado. Uma tragédia havia acontecido.
- Ela caiu!!! Não, não pode ser. – Era tudo que eu conseguia pensar naquela hora.
Do outro lado, o César, que estava praticamente embaixo do trapézio, quando tudo aconteceu, foi socorrê-la. Ela estava estática. Não conseguia falar, e sua respiração era ofegante.
- Fala comigo filha! Fala!- O Cesar estava em desespero, com a Thata nos braços.
Não havia resposta. Seus olhos estavam abertos, mas as palavras não saiam.
Quando vi o trapézio vazio, meu coração congelou. Não, não pode ser! Isso não pode estar acontecendo!!! Fiquei paralisada por segundos que pareceram uma eternidade. Quando ela caiu, como que num impulso de medo virei de costas para o salão, e permaneci assim, por milésimos de segundos. De costas para o trapézio, para a cena que parecia saída dos meus pesadelos. Era possível que aquilo fosse uma projeção dos meus medos subconscientes. Tive a esperança de olhar para o trapézio novamente e vê-los sorrindo e quase finalizando o número. Sonho, delírio, fuga... Quando retomei as forças e olhei novamente para o centro do salão, nada havia mudado. Ela estava no chão. A música continuava tocando. As luzes apagadas e os canhões de luzes ainda procuravam o que iluminar. Não, eles não eram mais necessários.
Desci o mais rápido possível da cabine de controle e corri na direção dela. Meu coração estava em desespero, não sabia o que ia encontrar. Internamente algo me dizia que a queda era só o começo.
Nesse caminho, lembrei de quando, aos 11 anos, ela se queimou... Nós trabalhávamos em casa, já para estar mais atentos e mais perto dos três. Day, Thata e Ian. A Day, sendo a mais velha, cinco anos mais que a Thata, não gostava de ficar muito com os dois irmãos menores, afinal era outra cabeça, outras brincadeiras... Já os dois menores estavam sempre juntos e dividiam os mesmos amigos. Nesse dia, apenas eles, Thata e Ian, estavam em casa. Era uma tarde de julho, férias da escola, mas dia de trabalho para nós. Tínhamos uma reunião num cliente e não tinha como adiar. Morávamos em um prédio, e apesar de não ter uma boa área de lazer as amizades compensavam. A reunião era rápida e eles já não eram tão pequenos assim, o Ian, 9 para 10 e, a Thata, 11 para 12 anos. Na volta da reunião, passamos no mercado para comprar o jantar. Foi quando o celular tocou. Era a vizinha, pedindo que voltássemos o mais rápido possível para casa. O motivo: a Thata tinha se queimado. Largamos as compras no meio do mercado e saímos correndo. Estava preocupada, mas esperava encontrar uma mãozinha queimada, ou algo assim. O que mais podia ter acontecido? O tempo que eles ficaram sozinhos foi curto e nem tinha porque mexer no fogo. Com certeza era algo leve. Chegamos no prédio e fomos direto para o apartamento da vizinha. Quando entrei, a primeira coisa que vi foi o Ian, assustado, como eu nunca tinha visto. Quando olhei para a Thata, ela estava com uma das pernas da calça cortada, quase até a virilha. Sua perna esquerda tinha diversas bolhas, e logicamente, ela chorava muito. O Cesar a pegou no colo para levá-la para o hospital. Isso já foi uma dificuldade, encontrar um lugar da perna que não tivesse bolhas. Para resumir a história: queimaduras de 2º grau, quase 3º, segundo os médicos, 1 mês em repouso, deitada, fazendo curativo no hospital a cada 2 dias. Depois de cicatrizado, um ano de uso de meia de compressão. Isso sem falar no prejuízo emocional, psicológico. Todo esse sofrimento fez renascer um samurai adormecido dentro de uma delicada princesa...
Toda essa história passou como um flash enquanto eu me aproximava ...
A Thata estava caída no chão, sem conseguir respirar direito, com o olhar mais assustado que eu já tinha visto. Me ajoelhei ,ao lado dela e pedi desesperada para chamarem o resgate. Minhas mãos tremiam, eu não conseguiria segurar o celular para fazer isso eu mesma. As pessoas em volta pareciam não acreditar no ponto que as coisas tinham chegado. De longe, ouvi o pessoal da produção pedindo para que alguém “livrasse a pista de dança” porque aquilo estava atrapalhando o andamento da festa. Ela foi falando enquanto se aproximava, foi só então que se deu conta da gravidade da situação, e imediatamente mudou o discurso. Um dos palhaços da festa era muito amigo da Thata, foi um dos primeiros a ter coragem de me pedir o impossível: calma. Tentando me fazer acreditar que era só o susto. Mas, minha intuição me dizia que eu precisava me preparar.
- Thata, calma. Vai ficar tudo bem! – tentei acalmá-la – Onde está doendo?
- Mãe, me tira daqui – foi tudo que ela conseguiu sussurrar.
Do outro lado, também ajoelhado, estava o Toni, chorando, paralisado, segurando a mão dela. Visivelmente ele não sabia o que fazer ou o que falar...era evidente o seu sentimento de culpa. Mas, não haviam culpados. Culpa do que? Ele também caiu. Também sofreu. Nada acontece por acaso. Aquilo não era simplesmente um acidente para atrapalhar um aniversário de quinze anos. O resultado daquela situação estava nas mãos do destino . Um ganho para cada perda. A Thata tinha um resgate a ser feito, talvez o mais importante dessa vida!
- Seu número estava lindo! Calma, você vai ficar bem! – Era Pietra, a aniversariante.
- Desculpa por estragar sua festa! Que vergonha! Desculpa! – Era o que a Thata pensava enquanto olhava pra ela. O que não podia ser dito em palavras era expresso em seu olhar de tristeza. Lágrimas de dor, vergonha e medo, corriam pelo seu rosto.
Enquanto o resgate não chegava, fiquei tentando falar com a minha filha para saber o que ela estava sentindo, se havia algum sintoma de fratura, ou algo assim. Ela sentia muita dor na altura do diafragma, no peito e nas costa. A respiração era difícil e estava com medo, muito medo.
- Essa queda foi provocada, eles querem te abrir. – Foi o que as vozes disseram para a Thata, nesse momento.
Além da dor, do medo, da falta de ar, havia as vozes, como que encomendando episódios de dor e sofrimento. Elas, as vozes, eram antigas conhecidas. Por várias vezes, na sua adolescência, já haviam se manifestado. Na maioria das vezes assustando e trazendo lembranças ruins. Pessoalmente, sempre vi essa situação como erro de interpretação. Na verdade, elas nunca haviam prejudicado ninguém diretamente, nem previsto algo que realmente tivesse acontecido posteriormente. Mas, dessa vez seria diferente...
Medo! Todos nós estávamos com muito medo. O Cesar no celular, chamando, mais uma vez o resgate, e sendo mais uma vez, informado que alguém já tinha feito isso. A família da aniversariante foi se aproximando. Olhares preocupados, corações solidários. Senti uma mão sobre a minha:
- Calma, vai dar tudo certo. – Era Fernanda, mãe da Pietra. Eu não tinha forças para responder. Meu peito estava pegando fogo, em pânico.
- O resgate chegou. – Finalmente, pensei. Parecia que tinha passado uma eternidade.
Fizeram várias perguntas pra mim, pra ela e com toda a paciência e cuidado ela foi sendo imobilizada, para se ter a certeza de manter as melhores condições de reparar qualquer fratura, ou algo assim. Fomos seguindo os paramédicos sem desviar a atenção da Thata, nem por uma fração de segundos, até a porta do salão. Sentia meu corpo todo tremer, o chão parecia ter desaparecido. Quase na saída e no meio dos meus pensamentos a respeito do que aconteceria dali em diante, um som tomou conta do ambiente. Eram aplausos! Muitos aplausos!!!! Olhei para trás e vi a maior demonstração de compaixão dos presentes. Todos, em pé, aplaudindo a artista Thata, em sua primeira e única queda, que teria como consequência a sua maior e verdadeira ascensão como consciência.