A Busca
Uma criança pode sempre ensinar três coisas a um adulto: ficar contente sem motivo,
estar sempre ocupado com alguma coisa,
e a saber exigir com toda a força
aquilo que deseja.
Foi uma escolha difícil. Estávamos decidindo entre a vida e a morte da nossa filha. O que tornava tudo mais complicado, era que não sabíamos qual caminho nos levaria onde queríamos chegar. Nem sempre a cura é a ausência da doença. Na maioria das vezes é um sinal. O que chamamos de doença é um sintoma de algo que não foi resolvido na nossa alma, e que não pode permanecer dessa forma. E assim, manifesta-se da maneira mais incômoda para nós, na freqüência em que vivemos: degenera, agride, mutila ou paralisa o corpo físico. Tudo para nos orientar em direção a consciência. Escolhas por vezes muito doloridas.
Cirurgia espiritual, Reiki, acupuntura, iniciamos uma busca para encontrar a solução. Várias questões surgiram. Dúvidas, questionamentos, medos. Aquela decisão podia estar condenando a Thata a morte, ou a vida. Colocamos a nossa fé em algo maior que, certamente nos faria tomar as decisões certas nos momentos necessários. E, assim fizemos...
A casa voltou a sua rotina, ou quase. Por mais que tentássemos pensar em trabalho, tudo parecia muito distante. A vida tentava se disfarçar de tranqüila, mas não dava. Tudo parecia muito irreal. Questionávamos nossos valores em relação a vida. Nada era mais importante do que encontrar um caminho e ajudar a Thata a se resolver.
O trabalho foi perdendo a força e os cursos, palestras e até mesmo o programa da rádio que eu adorava foi se desfazendo. Tentava colocar toda minha energia no trabalho, dependíamos totalmente dele para sobreviver. Mas, os ouvintes pareciam perceber que minha alma não estava presente. Faltava inspiração.
Evaldo Ribeiro, um grande amigo e brilhante comunicador da Rádio Mundial era responsável pela parte técnica do nosso programa, que era veiculado todas as segundas-feiras às 7hs. Graças a sua presença de espírito e a sua força conseguimos manter o programa por mais alguns meses. Tudo foi acontecendo como um dominó. Uma coisa foi empurrando a outra e a sensação de que tudo estava apenas começando era tão dolorida quanto uma chama queimando no peito. Apesar do nosso desejo de nos desvincularmos de tudo para nos dedicarmos exclusivamente a Thata, isso era muito, mas muito complicado. Tínhamos compromissos financeiros e não cumpri-los traria consequências desastrosas para nós, e também para outros. Mesmo sabendo disso, a dificuldade de concentrar energias para realizar nosso trabalho era evidente. E, isso fazia com que, dia-a-dia ele fosse minguando, e com ele nossos recursos financeiros foram ficando cada vez mais reduzidos e nossos problemas cada vez maiores.
Em contrapartida, a Thata resolveu se dedicar cada vez mais ao circo. Iria se aperfeiçoar, treinar, se apresentar e realizar tudo com que sempre sonhara. Sua inspiração continuava sendo O Teatro Mágico, um grupo de arte independente que mescla música, circo e poesia com grande maestria.
Todo o sonho do circo começou quando ela assistiu um vídeo deles no youtube, com a música Fé Solúvel. http://www.youtube.com/watch?v=1nJd9ckBdVE . Fernando Anitelli no Piano e Gabi Veiga no Tecido. Daquele dia em diante sua vida daria um salto. Onde as pessoas viram apenas uma bela música e uma linda apresentação de acrobacia aérea, a Thata enxergou seres encantados. Aquela fada, voando no tecido, despertou seu espírito para a arte, e a música que a fazia voar, entoada por um mago disfarçado de palhaço, embalou seu destino e a faria desafiar sua fé.
Para se inspirar e aprender novos truques, no tecido e no trapézio, passava horas assistindo seus vídeos youtube. Além do aprendizado, isso a fazia relaxar e sonhar. Músicas inspiradas, movimentos harmônicos, coloridos e brilhos celestiais....
A Lígia, sua professora no Clube Escola Jardim São Paulo e na Mooca, era mais uma das suas musas inspiradoras. Forte, determinada, habilidosa e se tornou uma grande amiga de todos em casa. Como a Thata treinava todos os dias, as duas estavam sempre juntas. Treino vai, treino vem, a lígia, vez em quando convocava a Thata para auxiliá-la nas aulas. Com isso ela foi ganhando habilidades de professora. A criançadinha foi gostando do assunto, ela começou a ensinar aéreos para a turminha e quando menos esperava o Gil e a Cássia (mantenedores do Projeto do Circo nos Clubes Escola de São Paulo) a chamaram para ser professora em um pólo.
Antes de oficializarem o trabalho conversaram conosco para saberem se a Thata iria fazer a cirurgia e se a mesma já estava programada. Como já tinhamos decidido que o caminho era outro, pelo menos naquele momento, tudo ficou mais fácil e a Thata foi contratada.
Ela ficou radiante com a proposta e nem pensou duas vezes pra aceitar! Tudo parecia conspirar para que o circo estivesse todos os dias presente na sua vida.
O colorido daquele mundo fantástico de luzes, cores, trapezistas e bonecas de pano fazia com que o “peso” da sombra, sempre presente do tumor, ficasse quase imperceptível para ela. Assim, nós, eu, Cesar e Ian estávamos em praticamente todas as suas apresentações, mesmo que nas mais corriqueiras, como aos sábados e domingos quando ela se apresenta apenas para “fechar” o treino com os alunos. Era como ver um lindo arco-íris num dia de trevas e tempestades. A chance de uma fada ou anjo ouvir o seu chamado é muito maior.
De outro lado, continuavam as buscas para uma solução sem traumas. Sempre que uma porta se abria para conversarmos com alguém sobre o caso da Thata e pedir uma indicação, não deixávamos que passasse em branco. E foi em uma dessas oportunidades que surgiu a indicação de um medium japonês, conhecido como Professor Hirota, muito famoso lá pelos lados de Atibaia, onde já tinha conseguido resultados maravilhosos, inclusive a cura de um câncer na garganta de um famoso apresentador de televisão, que por gratidão, doou uma casa onde ele realiza atualmente seu trabalho, com mais conforta para aqueles que pedem seu socorro. O Cesar chegou com a informação e já começamos a pesquisar e planejar a nossa pequena peregrinação até lá.
Pesquisamos, telefonamos, agendamos e só então conversamos com a Thata. Eu já sabia que ela iria resistir o quanto pudesse. Sua fé estava abalada. Se uma folha não cai de uma árvore que não seja pela vontade de Deus, a quem ela iria recorrer? Ao mesmo que permitiu seu martírio? O que faria Deus mudar de ideia de forma tão repentina? - Coloquei o tumor lá, mas já que ela está pedindo, vou tirar!
Para que a verdadeira fé e o verdadeiro Deus apareça, é preciso questionar todas as suas crenças, abalar todas as suas estruturas e permitir que as frágeis desmoronem de vez.
Desiludir-se!
Tirar todos os véus e escolher estar consciente da verdade. Assumir a responsabilidade por si mesmo é um aprendizado. O Cristo, ou Khristós, que foi literalmente arrancado de cada um de nós para ser personificado na imagem de Jesus, como se ele fosse o “único” filho de Deus feito homem. Como já relatei no início, tenho uma grande admiração por Jesus, mas ele nada tem a ver com a imagem criada pela igreja católica. Antes do famoso e histórico Concílio de Nicéia, Jesus era um dos profetas, o que não o desmerece em nada. Mas, transformá-lo em Deus vivo foi o grande, senão o maior crime, cometido pela Igreja: aprisionar o Cristo, potencial divino presente em todos nós, no corpo de um único homem chamado Jesus. Trazendo para a humanidade um período de escuridão espiritual e dor que ainda estamos vivendo. E, por mais que sua educação não seja dentro dessas crenças, elas estão presentes em todos os lugares, fazendo com que seu inconsciente esteja repleto delas. Achamos que não acreditamos. Que somos conscientes do nosso potencial de superação. Que estamos no comando e, quando necessário, teremos todo equilíbrio para acessar esse potencial e ativá-lo. É preciso estar de frente com o problema, a crise, a dor para perceber que todas essas convicções são absolutamente superficiais. Quando testadas, sucumbem!
Assim, insistimos com a Thata e, mesmo contra sua vontade, ela foi. No banco de trás do carro, blusa preta de capuz, óculos escuros, mp3 com fone de ouvido e uma tremenda dor nas costas. Essa dor não era nova e depois da queda piorou. Saímos cedo de casa. Tínhamos que chegar até as 10hs para pegar uma senha e sermos atendidos. Mesmo errando um bocado o caminho, conseguimos chegar. O trabalho é bem interessante, não há cobrança de taxas, nem nada do tipo. Começa com uma palestra que ressalta o potencial criativo e divino presente em cada um de nós. Ninguém é vítima, construímos nosso destino. Caminhos tranquilos, cheios de pedregulhos ou com montanhas intransponíveis....tudo é possível. Na sequência acontece o atendimento individual, que é bem rápido, por sinal. Uma fila é organizada com os números das senhas em sequência por ordem de chegada. E, assim, cada pessoa permanece na frente do Professor Hirota, por no máximo, 1 minuto. A pessoa diz a ele qual o problema e aponta o local no corpo. Ele coloca um curativo de gaze com esparadrapo no local e orienta o retorno, caso seja necessário. No caso da Thata ele pediu que ela voltasse em 15 dias, e para ela não operar.
Para surpresa, minha e do Cesar, a Thata saiu do atendimento muito bem. A dor nas costas tinha passado e ela estava até com fome. Com isso, ficamos todos muito animados. Aproveitamos o sábado juntos e paramos na estrada para comer alguma coisa.
Algo, naquela passagem de 1 minuto, fez a Thata começar a repensar suas crenças. Ela estava mais confiante e tranquila. O arco-íris ficava cada vez mais visível na tempestade.
Ao mesmo tempo, ela recomeçou o trabalho com o Nivaldo, frequentando as manhãs de sábado no espaço comandado por esse grande amigo, orientador e companheiro de jornada.
A Thata passou por um conjunto de orientações, energias, mentores, limpezas, físicas e espirituais. Tudo para rearranjar seus corpos: mental, emocional e energético. Havia uma grande preparação no plano espiritual, e essas “buscas” faziam parte dela.
Ainda na intenção de encontrar alguém que pudesse dar um prognóstico diferente de cirurgia, procuramos um antigo amigo do César, o Geraldo. Colega de escola, na época o chamado ginasial, hoje, ensino fundamental. Eles se tornaram amigos espirituais, aqueles que nem a distância ou o tempo são capazes de separar. O Geraldo, se estabeleu como médico em Santa Bárbara d'Oeste, interior de São Paulo e com certeza poderia nos indicar um caminho. Alguém para dar uma segunda opinião ou mesmo um tratamento alternativo. No mesmo dia o Cesar fez contato, explicou a situação e ele nos indicou um especialista no assunto e médico na cidade de Santa Bárbara. Disse que falaria com o colega de profissão, e marcaria um dia para que fossemos até lá com os exames para que ele pudesse avaliar. E assim aconteceu.
No dia marcado acordamos no horário de sempre, por volta das sete da manhã. O dia estava cinza e a consulta estava agendada para as 17hs. Ainda deitada, percebi que o Cé havia levantado, talvez para ir ao banheiro e abrir as gaiolas do Ghandi e do Ashtar.
- Ghandi, oi passarinho. Ghandi!!!
Era o Cesar falando com nossos pássaros. Mas havia algo de errado no tom da sua voz e na sua insistência em chamar o Ghandi.
- Ká, acho que o Ghandi morreu! - Gritou o César, já em desespero, para mim.
Levantei da cama num pulo só e corri para a sala. Não, não podia ser real. O Ghandi foi nosso primeiro pássaro. Ele veio como um presente. O Ashtar chegou alguns meses depois como um companheiro para o nosso meigo guardião. Todos nós éramos muito apegados a ele, mas no caso da Thata era diferente. Ela havia encontrado no Ghandi uma energia que ainda não conhecia. Alguns animais conseguem acessar a nossa alma, “puxar” o melhor que existe em nós. E assim era com ele. De repente, começava a assobiar, desafinadamente, o começo do hino nacional, e um sorriso, quase que instintivo, surgia no rosto de todos os presentes. Doce, meigo, sensível. Um amigo para todas as horas. Por várias vezes a Thata ficava com ele no ombro, por horas, e isso, de alguma forma, a fazia recuperar o ânimo.
Quando cheguei na sala o César estava com o corpinho dele nas mãos, já sem vida. Aos prantos, peguei nosso pássaro nas mãos, ajoelhei no corredor da sala e o aproximei do meu coração. Senti uma dor no peito e uma voz, dentro da minha cabeça gritou:
- Uma vida pela outra! Ela será salva, mas ainda terá que operar.
Num momento, toda aquela história fazia sentido. O Ghandi tinha um ferimento no peito. Resultado de uma asa cortada de maneira errada por um gênio do mal, um senhor dono de um petshop, que onde sua mão toca a energia se esvai. Infelizmente quando percebemos isso o Ghandi já tinha morrido. Coincidência, ou não, a asa mal cortada era a direita, o mesmo lado da cirurgia da Thata. Esse ferimento era uma abertura, um corte e nossa doce calopsita sofria a cada vez que tinha que tratá-la, limpar e passar um anti-inflamatório. Durante 2 meses, aproximadamente, seguimos a risca o tratamento, e quando , enfim, o corte fechou, ele morreu. Saiu voando do puleiro, caiu de mau jeito e morreu. A sensação que eu tinha resumi-se em uma palavra: SACRIFÍCIO.
Nosso pássaro, mensageiro dos deuses, havia levado consigo uma parte do sofrimento que a Thata teria que passar. Sofreu em seu lugar. Dividiu, com ela, a sua dor.
Chorei. Chorei. Lamentei. Gritei de dor. Ele continuou inerte e sem vida. Aquele que, muitas vezes nos abençoou com seu canto e sua alegria, nos fazendo despertar do transe dessa vida automática que, muitas vezes, levamos, já não fazia parte do nosso mundo.
Não adiantava mais chorar. Levantei do chão, fui no nosso quarto e peguei um antigo lenço indiano que tinha o hábito de amarrar no pulso, significando força e renascimento. Enrolei-o e o coloquei num pequeno altar que mantinha na sala. Fiquei paralisada por algum tempo, olhando para aquela realidade que nenhum de nós tinha forças de enfrentar naquele momento.
A Thata e o Ian ainda estavam dormindo e decidimos que seria melhor acordá-los e contar o quanto antes, o que tinha acontecido. Foi difícil. Dolorido. Indescritível. Todos passamos o dia com a sensação angustiante da perda. Choramos. Choramos. Choramos.
A hora de sair para Santa Bárbara chegou e decidimos colocar o corpinho do Ghandi no carro, para talvez enterrá-lo na estrada. A viagem foi triste e silenciosa. Chegamos um pouco atrasados, mas o Dr. Marco Aurélio, nos recebeu com muita simpatia e de forma muito carinhosa. A Thata, que mais uma vez resistiu em nos acompanhar, estava presente apenas na aparência, seu espiríto não estava alí.. Ele começou olhando as tomografias e os exames que levamos. Sua perplexidade com a situação foi notória. Tumor grande, entre o coração e o pulmão, assintomático e em uma pessoa com atividade física intensa. Como ela podia não sentir absolutamente nada?
- Thabata, você não sente nada? - Perguntou o Geraldo, também um tanto surpreso.
- Não. - Respondeu a Thata, já acostumada com o susto dos médicos quando viam seus exames pela primeira vez.
A conversa se estendeu de forma tranquila. Eles faziam questão de nos explicar todos os pontos que, para nós, ainda pareciam nebulosos. Com extrema paciência tentavam esclarecer as nossas dúvidas. Para nossa surpresa, o Dr. Marco conhecia a equipe da Santa Casa que estava nos atendendo, e confirmou o que já sabíamos: eles eram referência em Cirurgia Torácica e, ela não poderia estar em melhores mãos. A solução era realmente a cirurgia.
Saímos do consultório e fomos comer uma pizza, até mesmo para ter um tempinho de conversarmos com o Gê, como o Cesar o chama. Falar de outras coisas e, assim, tentar esfriar um pouco a cabeça e aliviar os temores.
Podia ver a tristeza estampada nos olhos da Thata. Queria poder dizer a ela que tudo daria certo. Que fazendo ou não a cirurgia tudo ficaria bem. O problema é que eu só conseguiria dizer isso, a ela principalmente, se eu acreditasse nessas afirmações. E, naquele momento, aquilo tudo me assustava.
- Thata, calma! Falei segurando a sua mão. - Eu vou estar sempre do seu lado.
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Os treinos continuavam, e além de dar aulas no Clube Escola ela participava do grupo do Rob. Ele já havia sido seu professor de solo e saltos, quando ela era apenas aluna no projeto. Aos poucos tornou-se amigo e reconheceu nela um potencial que podia ser desenvolvido. Todos os sábados à tarde ela passava treinando, forçando, aprendendo...lutando!
Desses treinos surgiu a possibilidade de uma apresentação em uma universidade. Bom público. Oportunidade de aparecer e crescer. Mais ensaio, mais treinos...
Nesse ritmo as coisas estavam cada vez mais mascaradas. Quando a dor nas costas piorava corríamos com ela para o acupunturista, o que ajudava e conseguia o esperado: eliminar a dor. No dia a dia tudo caminhava. Mas, internamente, eu não conseguia pensar em outra coisa um só minuto. Por vezes parava diante do computador para desenvolver um trabalho, ou mesmo para responder um e-mail e as palavras ou a resposta, não engatilhava. Juntando a falta de inspiração com a proximidade do final do ano, quando ninguém mais quer saber de fazer curso ou se aprimorar em alguma coisa, nossa situação financeira ficava mais perigosa a cada dia.
Passaram-se os quinze dias e voltamos no Professor Hirota. Dessa vez, já conhecíamos o caminho e chegamos bem antes do horário. Dia claro e ensolarado. Fizemos o procedimento já conhecido: senha, espera, palestra, fila para passar pelo professor por 1 minuto. Dessa vez, todos pegamos uma senha. Só o Ian não quis nos acompanhar, nem mesmo na viagem. Pra mim foi uma experiência interessante, estava com uma dor de cabeça constante e quando ele colocou o curativo, foi como se aquele ponto tivesse toda minha atenção a partir daquele momento. A dor passou. Fiquei com uma sensação de paz e relaxamento. Na sua vez, a Thata relatou o mesmo problema, foi quando ele respondeu:
- Não tem tumor! Não tem nada aí!
- Tenho que voltar? - Perguntou a Thata.
- Não. Você está bem.
A Thata saiu de lá pisando em nuvens.
- Mãe, ele disse que eu não tenho nada. - relatou radiante.
Eu fiquei sem palavras. Para nos certificar que aquilo era real teríamos que fazer uma tomografia. Que só aconteceria no começo do ano, e ainda estávamos em novembro.
- Nossa, Thata! Como você está se sentindo? - Perguntei
- Ah mãe, sei lá! Eu estou bem. Minha dor nas costas passou. Acho que pode ser verdade.
Voltamos para casa pensando naquilo tudo. O tempo passou. O dia da primeira apresentação da Thata e do Toni depois da queda, havia chegado. Mudaram a música, mas o número era o mesmo. Apenas um detalhe, na famosa volta do cristo havia sido alterado, mesmo porque, ela estava bem, mas ainda não tinha recuperado toda sua força e confiança. Por outro lado, nós, também não estávamos recuperados. O medo ainda nos assombrava. Mas, em momento algum deixávamos transparecer. Ela precisava confiar em si mesma, no seu trabalho e em todo tempo que tinha dedicado a treinamento intenso. Afinal, ela tinha se transformado de boneca de pano em trapezista.
Como sempre, nos propusemos a ajudar. Levamos a Thata e auxiliamos com o som. Era um espaço muito bom, a praça de eventos estava montada. A estrutura onde o trapézio e o tecido seriam instalados estava muito bem colocada, proporcionando uma boa visão de qualquer ângulo. Tudo certo. O show iria começar a qualquer instante!
Apresentação do Circo Olímpico:
Tecido: Nerissa
Double Trapézio: Thata e Toni
Lira: Tatá 2
Solo: Rob, Allan, Pulga e Neto
Tudo estava correndo bem. Música, luzes, acrobacias....Até que o Toni entrou e começou a sua performance individual que precede o Double em parceria com a Thata. Meu coração disparou, sentia que ele explodiria a qualquer instante. Tentei respirar pausadamente e me tranquilizar. Repeti várias vezes, silenciosamente:
- Calma! Respira! Vai dar tudo certo.
Mas, eu sabia que , a cada segundo que passava, mais a entrada da Thata seria inevitável. Assim, meu coração parecia disparar a cada respiração.
De repente ouvi os já esperados gritos da platéia em delírio: abri os olhos e lá estava ela subindo no trapézio!!! Nada mais a poderia impedir. Ela já estava voando outra vez nos braços dos seus sonhos de bailarina do vento, permitido apenas para bonecas de porcelana que se transformaram em gente através da generosidade de alguma fada solitária.
O medo me fez fechar os olhos, virar de costas para o trapézio e rezar para que os senhores do tempo acelerassem os relógios e acabassem logo com o meu martírio, mas que mantivessem eternos os momentos de glória Thata.
Aplausos.... assobios.... TERMINOU!!!!
Abri os olhos e corri para abraçá-la e dar os parabéns!
- Lindo, Thata! Foi lindo, parabéns!!!! Falei, enquanto enchia ela de beijos.
Só no dia seguinte tive coragem de contar que, durante a apresentação, tinha virado de costas e fechado os olhos, como se uma das duas coisas já não fosse suficiente! Ela ficou brava, achando que eu não confiava na sua técnica. No fundo, eu sei que ela me entendeu.
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A vida se fez montanha de repente,
e para fugir da dor corremos em direção ao abismo...
Loucos voadores, sem medo e sem coração...
Os anjos nem sempre estarão a sua disposição.
Levem a vida para casa e escondam embaixo do travesseiro.
Sonhem com a morte e acordem embaixo do chuveiro.
Embriagados de ilusão...Despertem!!! Ainda é tempo!!!!
Resgatem a vida que guardaram no travesseiro, suguem-na, ouçam-na....
Não importa se é montanha ou lindo jardim,
importa é sentir o cheiro da terra,
o calor do sol,
os pés no caminho...
e o coração? No destino.
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Com o circo ocupando vinte e seis horas do seu dia, a Thata resolveu se aperfeiçoar ainda mais. Entrou para o CEFAC – Centro de Formação Profissional em Artes Circenses. O centro se propõe a formar profissionais competentes na área e sua duração varia de acordo com a evolução individual do aluno e a especialidade escolhida. Um novo desafio. Audição marcada para dia 12 de dezembro de 2008.
As coisas pareciam estar mais calmas, pelo menos no que se referia a situação da Thata. Ela estava bem, com disposição para treinar e animada com o novo trabalho. Na nossa fantasia era como se o tumor fosse apenas uma sombra que, a cada dia, se tornava menos visível.
O dia da audição no CEFAC chegou e, como era de se esperar a Thata passou, com louvor. Desempenho fantástico. Ela voltou pra casa muito, mas muito feliz! Uma nova vida começaria no ano seguinte. Carreira profissional garantida e grandes possibilidades de se aperfeiçoar no exterior nos próximos anos - O CEFAC mantem convênios com escolas de circo em outros países.
A vida estava mais florida. Apesar de saber que os espinhos permaneciam presentes, não os via, e isso já era um grande alívio. Algumas brechas de sol se mostravam presentes no céu tempestuoso. Dali em diante apenas a mão de um anjo poderia nos conceder o retorno a tranquilidade do dia antes da queda, ou quem sabe, para algo ainda melhor. Mas para isso, ele teria que cair também. Descer nos mundos inferiores e resgatar a alma de uma menina-mulher. Presa nas suas próprias fraquezas e incertezas, e ajudá-la a reencontrar seu caminho.
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